Arrumo lugares no meu coração, carrego você na alma, te falo silenciosamente  sobre as canções que não teve tempo de ouvir, os livros que não leu, as ruas que não viram seus pés, partilho a vida nessa comunhão silenciosa, te levando para os lugares onde vou, carregando você no coração,meu jeito de ajeitar a vida...

 (Teresa Gouvêa)

 
Separação

Desmontar a casa

e o amor. Despregar

os sentimentos das paredes e lençóis.

Recolher as cortinas

após a tempestade

das conversas.

O amor não resistiu

às balas, pragas, flores

e corpos de intermeio.


Empilhar livros, quadros,

discos e remorsos.

Esperar o infernal

juizo final do desamor.


Vizinhos se assustam de manhã

ante os destroços junto à porta:

-pareciam se amar tanto!


Houve um tempo:

uma casa de campo,

fotos em Veneza,

um tempo em que sorridente

o amor aglutinava festas e jantares.


Amou-se um certo modo de despir-se

de pentear-se.

Amou-se um sorriso e um certo

modo de botar a mesa. Amou-se

um certo modo de amar.


No entanto, o amor bate em retirada

com suas roupas amassadas, tropas de insultos

malas desesperadas, soluços embargados.


Faltou amor no amor?

Gastou-se o amor no amor?

Fartou-se o amor?


No quarto dos filhos

outra derrota à vista:

bonecos e brinquedos pendem

numa colagem de afetos natimortos.


O amor ruiu e tem pressa de ir embora

envergonhado.


Erguerá outra casa, o amor?

Escolherá objetos, morará na praia?

Viajará na neve e na neblina?


Tonto, perplexo, sem rumo

um corpo sai porta afora

com pedaços de passado na cabeça

e um impreciso futuro.

No peito o coração pesa

mais que uma mala de chumbo.


(Afonso Romano de Sant'Anna)



11/10/2016 | 15:29 Elba Lucia Novello Que palavras mais verdadeiras para uma separação . Só vivi a separação na morte , mas acredito que me sentiria assim em uma outra forma de separação .

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