Arrumo lugares no meu coração, carrego você na alma, te falo silenciosamente  sobre as canções que não teve tempo de ouvir, os livros que não leu, as ruas que não viram seus pés, partilho a vida nessa comunhão silenciosa, te levando para os lugares onde vou, carregando você no coração,meu jeito de ajeitar a vida...

 (Teresa Gouvêa)

Eu me Lembro
 
 
Memórias Luto
 
 

Eu Me Lembro é o primeiro longa-metragem do cineasta Edgard Navarro, com uma visão poética de inspiração autobiográfica. O filme recebeu, quando era apenas um roteiro, o Prêmio Carlos Vasconcelos Domingues, patrocinado pela Secretaria de Turismo e Cultura do Estado da Bahia, como incentivo à produção de filmes. Também foi o grande vencedor do 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com os prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz para Arly Arnaud, Melhor Ator Coadjuvante para Fernando Neves, Melhor Atriz Coadjuvante para Valderez Freitas Teixeira, Melhor Roteiro e Prêmio da Crítica.

O longa acompanha a história de Guiga desde sua infância, em Salvador. Apegado à mãe Aurora, o pequeno tem problemas com o autoritário pai Guilherme que se mostra um puritano e culpa a mãe por todos os problemas domésticos. O garoto descobre sua sexualidade precocemente, tentando entender as coisas que acontecem ao seu redor, envolvido por uma curiosidade religiosa que passará a ser a razão de muitos de seus conflitos. Com a morte da mãe, ele passa a repudiar o pai, julgando-o culpado pelo ocorrido. Quando jovem, Guiga depara-se com a ditadura, optando por não se envolver na luta armada e militância, criando um grupo de hippies.

Edgar Navarro mistura realidade e ficção, traçando um painel de memória coletiva, focado na visão do protagonista de uma maneira desordenada e conflitante. Porém, Eu Me Lembro não é um filme comercial, atraindo um público seleto com um gosto bem peculiar pelo cinema de arte. Navarro transforma - aos "trancos e barrancos" e pouquíssimo dinheiro - o cinema como forma de expressão.

Utilizando uma linguagem diferenciada, o ponto forte de Eu Me Lembro é a combinação harmoniosa entre fotografia, edição e trilha sonora, acompanhando a evolução do personagem, retratando uma geração símbolo de uma época, um período que vai do suicídio de Getúlio Vargas (1954) à morte de Vladimir Herzog, em 1975. Acompanhando as crises existenciais de Guiga, vemos momentos importantes do Brasil como a chegada da televisão e a conquista do futebol brasileiro na Copa Mundial, recheados com músicas que acompanham cronologicamente a história do País.

Eu Me Lembro não oferece respostas, não tem um desfecho que agrade ao espectador mais tradicional, mas esse é seu encanto, fugir do lugar-comum, trazendo um enredo reflexivo e intenso em todos sentidos.  

por Livia Brasil 

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