Arrumo lugares no meu coração, carrego você na alma, te falo silenciosamente  sobre as canções que não teve tempo de ouvir, os livros que não leu, as ruas que não viram seus pés, partilho a vida nessa comunhão silenciosa, te levando para os lugares onde vou, carregando você no coração,meu jeito de ajeitar a vida...

 (Teresa Gouvêa)

Saudade
 
 
Samuel de Jesus (estudo sobre a saudade)
 
 

(Sinopse) “Onde o ausente é comida, as saudades são fome”, escreve Antonio Viera no Índice das coisas mais notáveis. Parece dizer bem o “imperador da língua portuguesa” (como o nomeou Fernando Pessoa), essa mesma língua que se orgulha de ter uma única palavra para designar um sentimento cuja ambiguidade parece intraduzível aos outros idiomas – e, portanto, às outras culturas. Se são fome e plural, como quer o pregador jesuíta, as saudades são carência, e múltiplas. Carência, falta, ausência do que fui ou do que se foi, do que esteve e passou, do que se ama mas não está, do que se amou e nunca mais estará, do que se ama e jamais esteve. Assim, pois, como não há memória sem tempo, não há saudade sem lembrança. Por isso a pintura e sobretudo a fotografia se revelam, ao mesmo tempo, como repositórios e provocadores da atualização dessa dor – não necessariamente desesperançada mas sempre melancólica – causada pela imagem eternizada de um momento ou de uma paisagem, de uma pessoa ou de outro sentimento, de uma cena ou de outros tempos, radicalmente outros e singulares, únicos, irreproduzíveis. Centrando-se na fotografia, num percurso que começa pela etimologia da palavra e sua apropriação pela poesia medieval, passando pela pintura, Samuel de Jesus empreende exaustivo estudo sobre as relações entre aquela invenção relativamente recente, hoje tão universal e popularizada, e esse afeto no âmbito da cultura luso-brasileira. Não há exagero em afirmar que este é o mais complexo e monumental estudo sobre esse sentimento que nos é tão caro, com a vantagem de que o presente ensaio é fruto de um olhar estrangeiro, portanto menos sujeito à paixão com que a saudade foi contemplada pela historiografia, desde o século XIX, inclusive por correntes ideológicas ultraconservadoras dos dois lados do Atlântico. Com impressionante erudição, Samuel de Jesus repõe o tema da saudade em sofisticada perspectiva, inteiramente nova e inovadora, inaugurando outro momento na biografia desse sentimento inseparável de qualquer biografia. 

 
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