“Amor, eu queria mais tempo…”

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“Amor, feche os olhos para descansar…”, na fala, o amor que manifesta uma de suas expressões mais transcendentes, a entrega, deixar ir querendo que fique.  As fotografias vão dizendo sobre esse amor, você viaja pelo perfil todo no Instagram e não encontra uma imagem em que Enock não esteja sorrindo. Dani se despede fisicamente do marido, as crianças, do pai. Ele fica, procurando as mãos dela entre os pães e as louças, na brincadeira com as crianças, na argila sendo moldada e contando sobre o tempo das coisas. Tiveram tempo, para caminhar por onde estiveram, relembrar a própria história, “para assistirmos nosso último filme juntos na TV do quarto de hospital (cinema era nosso programa favorito).” O tempo retirou a adolescência dos filhos, os cabelos branquinhos, “o lugar na mesa para o café, o aconchego na hora de dormir, os passos no jardim, as brincadeiras inusitadas com as crianças. O sorriso do Enock fica, num lugar sagrado, nos canteiros da alma, moldados com amor.

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“Nos conhecemos há 13 anos e, assim que nos vimos, sabíamos que compartilharíamos uma história juntos. Dividíamos o sonho de sermos pais e eu engravidei. Qual não foi nossa surpresa e felicidade ao saber da notícia da tão desejada chegada de um(a) filho(a)? Também foi nosso primeiro desafio como casal, ao perdê-la aos 3 meses de gestação. Eu digo perdê-la porque mesmo sem saber o sexo, tinha a sensação de ser uma menina. Se chamaria Anna Luíza. Então novamente eu estava grávida, fruto de um tratamento que nos daria três filhos rs. E nós esperávamos pelos três, seriam: Antônio, Francisco e Anna Maria. Ao final do tratamento, dois bebezinhos se implantaram e nasceram: Antônio e Anna Maria. Minha sobrinha com 4 anos na época me disse: tia, o Francisco foi para o céu, os exames depois confirmaram: Francisco havia ido para o céu. A espiritualidade das crianças é fantástica.
Quando os bebês estavam com 5 meses de vida, descobrimos que o Enock estava com um câncer raro de apêndice. Passou por cirurgias, quimioterapia intradermica, quimioterapia convencional e recebemos de presente a chance de estarmos com ele em vida. Eu dizia: pura vida! Não preciso dizer como nos sentimos vivendo essa situação, com dois bebês de meses nos braços, enfim, tudo passou, seus acompanhamentos médicos sempre bem. Mas dentro de mim sempre existia o medo. Quando será que essa doença voltará para nos assombrar? Corremos atrás de nossos sonhos. Os que foram possíveis de realizar. Partilhávamos da palavra e do convívio de Deus … sempre gratos.
Até que seis anos depois, ele teve algumas crises de dor, três, entre outros sinais. Era internado e liberado após procedimentos. Diziam: você terá que aprender a conviver com isso, por causa do seu problema no passado. Na terceira vez, um procedimento cirúrgico. Duas tentativas. Não era o câncer, mas uma complicação derivada das quimioterapias agressivas. Seu corpo não conseguiu se regenerar. O médico disse para me despedir. Trazer as crianças e família. Tínhamos 72 horas. Decidimos tudo juntos. Ele sabia. O Enock tinha uma Fé inabalável. Me dizia: não vou morrer. Ele lutou conscientemente por quatorze dias. Tivemos tempo. Para relembrar nosso caminhar, para nos desculparmos, para fazer novos planos no momento em que voltasse para casa, para ver as crianças, rezarmos … rezarmos e rezarmos. Até para assistirmos nosso último filme juntos na TV do quarto de hospital (cinema era nosso programa favorito).

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Eu queria mais tempo. Queria voltar no tempo. Mudar o tempo. Numa quinta-feira ele entrou em processo ativo de morte. Aprendi isso lendo tudo o que podia depois de perdê-lo, procurando respostas para o meu coração destroçado. Fiquei com ele. A última ligação de WhatsApp para as crianças. Ele disse: “o pai ama vocês.” Segurava forte na sua mão. Ele ainda me dizia: não chore, não vou morrer. Então, vendo sua dificuldade para respirar e sua vontade de permanecer por nós, eu lhe disse: amor, feche os olhos para descansar, seu corpo lutou tudo o que pôde. Vamos ficar bem. Ele consentiu com a cabeça e, sem chance de negociação, a morte vem e tira de nós mais que uma vida.

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Sou enlutada há seis meses e ainda tento compreender os porquês. Tento explicar para as crianças nossa impermanência nessa vida. Eles sentem medo da morte. Tem medo de me perder. Não existe uma fórmula para conduzir o processo. Tudo o que sei é que não posso parar. Por eles. Para eles eu dou meu amor, presença, compartilho boas histórias, músicas e fotografias. Mostro que o papai vive neles. Porque vive mesmo! Nossa Anna vê o papai e conversa com ele. Ela diz: o papai precisou ir para o céu cuidar da Luíza e do Francisco (porque criança dá trabalho rs). A espiritualidade das crianças é fantástica. Para mim, dou o tempo. Transformo a dor em poesia. Tenho longas prosas com ele. Muitas delas no café como fazíamos. Enock era artista plástico. Encontrei na argila uma maneira de me conectar com ele. Materializo a ausência dele em peças de cerâmica. Me lembro de como ele pintava, das explicações sobre a arte. Caminho pelos jardins que ele fez para mim. Sinto que a qualquer momento posso vê-lo. Estamos prosseguindo. Ressignificando. “Atraversiamo”!

O tempo de hoje é um tempo de aprendizado, como um aluno recém-chegado na escola primária com seu caderno em branco. Falta um lugar na mesa para o café, falta o aconchego na hora de dormir, faltam passos no jardim, brincadeiras inusitadas com as crianças. O tempo se alonga por horas quando penso no reencontro e se reduz em minutos, quiçá segundos, desacreditando da sua partida tão prematura. A gente persegue o tempo a todo momento: para corrigir o que achamos que teria correção, para aproveitar um pouco mais o que perdemos, para viver o que ainda gostaríamos de ter para viver. O tempo judia. Minha filha me disse: mamãe, como eu posso ter ficado sem pai só com seis anos? Isso o tempo não nos ajuda a explicar. Ele dá um jeitinho e sai de fininho rs. Deve pensar…estou correndo…sem tempo.

Eu faria tudo por um pouco mais de tempo, eu faria tudo para vê-lo estender a mão por entre os pães e louças para segurar na minha, eu faria tudo para ouvir: “bom dia, minha flor.” Eu não teria escolhido ninguém diferente para segurar na minha mão nessa jornada e na próxima.” 

(Autoria: Danyelle Lopes Moraes)

@danyellelopesmoraes

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