Como imaginar a finitude da vida para um filho?

2513

119584916_10158521204959185_8455430354690960958_n

Solange, mãe eterna do Gabriel, fala dessa dor que “não tem nome, nem tamanho e muito menos fim”, como lidar com o silêncio da casa, a ausência do cheiro e dos passos, é preciso respeito com os dias que não passam e com os dias que seguem apesar de, estranho até mesmo a continuidade dos dias sem um amor tão imenso, talvez “oscilando entre a calma e o desespero”, talvez tendo o direito de pensar e falar nesse filho todos os dias, para sempre…

“Hoje faz um ano que meu filho Gabriel partiu. De forma abrupta, inesperada. Não consegui nem me despedir. Não ouço mais sua risada gostosa e seus passos pela casa. Não vejo mais aquele sorriso lindo. Não sinto mais seu cheiro, que mesmo depois de um treino intenso de judô era maravilhoso. Como imaginar a finitude da vida para um filho? Nunca havia tido tal pensamento sombrio. A dor de perder um filho é indescritível, insuportável. Paralisante. Dor que não tem nome, nem tamanho e muito menos fim.

Nesse ano fui do céu ao inferno inúmeras vezes, sempre num vazio completo. Sem respostas. Com uma saudade inconsolável que tortura. A oscilação entre a calmaria e o desespero em frações de segundo é cruciante. Não existe um dia que eu não pense nele. Em como ele está, ou onde ele está. Todos os nossos planos, projetos e sonhos foram interrompidos, isso me deixa sem chão. É muito difícil juntar forças para tentar sair desse fundo de poço. Descobri que tenho uma fé capaz de me sustentar e uma família que não me deixa cair. Também descobri que existem vários anjos em forma de gente, pessoas desconhecidas e conhecidas que me estenderam a mão sem pedir nada em troca.
Quando a tristeza de um acontecimento tão traumático como um filho partir vem, temos dois caminhos a seguir. Ou você se entrega à dor e deixa de viver, ou você reaprende a viver com ela e com a falta, continua a jornada tentando levar de uma forma mais leve. Eu segui o segundo caminho, principalmente porque tenho mais três filhos e não quero que eles sofram. Prefiro sofrer sozinha a levar a tristeza a eles. Quem é mãe me entende.
E como eu sei que o Gabriel era alegria pura, tento deixar a vida mais leve. Meu filho sei que você está bem e segue nessa outra dimensão, mas continua vivendo dentro de mim. Meu filho agradeço muito a você por ter me dado a alegria e a honra de ser sua mãe, serei sempre grata por isso. Com esse seu sorriso encantador sigo a jornada do lado de cá e com a certeza do nosso reencontro. E como você falou na carta: mãe é sério estou bem.
-Te amo pra sempre, sua mãe, Solange Schlichta Kojima

Data: 08/09/2020

Insta: @solkojima

Sem comentários

Deixe um comentário