É meu filho, meu filhinho, que cuidamos com tanto amor…

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(Autoria: Teresa e Gedson, pais eternos do Gedinho)

O futebol, um sonho acalentado desde o início, “aos três anos já demonstrava alguma habilidade com a bola, correndo atrás de bexigas e chutando”. Um sonho com promessas de uma vida confortável para os avós,  de uma carreira no futebol e de tantas coisas imaginadas. Um filho, meu filhinho, cuidado e amado, esse amor imenso que não se dimensiona. Um filho, que vai atrás das suas escolhas, do seu querer, da sua paixão, o futebol. Pais que entregam, confiam, acreditam. Um filho que dorme. Um incêndio, a dor, os joelhos no chão, a busca de alguém maior para continuar. Lágrimas, dor, saudade. No choro compartilhado o conforto, na gratidão a presença do filho,  na oração e no filho que fica, a continuidade. Uma dor inimaginável, sem remédio “para a dor da perda, não existe nenhum remédio, dói na alma. É uma dor que é só tua. só você sabe o quanto machuca e o quanto dói.” A busca por outra Teresa, não será como antes, uma Teresa que, nos sonhos, encontra o filho, no amanhã, espera o encontro.

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“É muito fácil e, ao mesmo tempo, doloroso contar como era o Gedinho. Para quem o conheceu e gostava muito dele é como passar um filme na cabeça. É difícil escrever e não derramar lágrimas. É meu filho, meu filhinho, que cuidamos com tanto amor.
Gedinho era um menino alegre, amoroso, preocupado, obediente, bonito, responsável e, também, muito temente a Deus. Como toda criança/adolescente, tinha seu lado explosivo, principalmente no futebol. O seu tamanho chamava a atenção, era o menor entre os outros meninos, mas isso nunca foi um problema para ele, até porque ele se destacava em campo com sua habilidade e suas jogadas.

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A bola era a sua preferida, tudo girava em torno da bola e do futebol. Na rua, se tivesse uma tampinha de garrafa pet, pronto, era o caminho todo driblando a tampa! O que eu não daria para viver isso com ele novamente. E quando o pai dele perguntou se ele queria treinar futebol? Não perdia um treino, com chuva ou com febre, ficava bravo quando cancelavam.
Seu único sonho era ser jogador. Dizia para os avós paternos que quando se tornasse jogador cuidaria deles. Por mais que digam ou ainda falem que o sonho foi interrompido não acredito, desde a primeira vez que ele entrou para jogar já tinha se tornado jogador, o meu jogador. E eu sempre serei sua fã número 1 e Gedinho para mim sempre será o melhor jogador.
Aos três anos já demonstrava alguma habilidade com a bola, correndo atrás de bexigas e chutando (risos). Com sete anos, estava totalmente envolvido com o futebol e, aos 11 anos, em 2015, foi morar em Curitiba longe de casa e da família.
O dia em que nos deram a pior notícia das nossas vidas é inesquecível. Acordei com a ligação do meu marido, às 06h30, dizendo que não conseguia falar com o Gedinho e que onde ele estava havia pegado fogo. Liguei várias vezes e ninguém atendeu. Liguei a TV e vi a notícia sobre o incêndio em todos os canais. Ali, o desespero já começou a rodear, mas, eu pensava, “o Gedinho não, ele escapou, ele é esperto”.
Meu esposo trabalhava a semana inteira fora de casa e retornava aos finais de semana. Assim que chegou, me disse: “Não encontraram o Gedinho”. Ele sabia que nosso filho estava sem vida e achou melhor não falar naquele momento. Meu Deus, o meu chão foi só desabando. Recebemos, então, uma ligação do Flamengo. Pediram que alguém da família fosse resolver os detalhes do terrível ocorrido. Eu, ainda sem acreditar, perguntei ao meu marido se ele não iria levar uma peça de roupa para o meu menininho.
Foram os 3 dias mais longos da minha vida desde o momento que eu soube da sua partida até o dia do sepultamento. Perdemos o rumo por vários dias e nos esquecemos de viver por alguns momentos, uma parte da gente queria acordar de um pesadelo real. Várias pessoas ao nosso lado e a impressão de que estávamos sozinhos. Ninguém poderia fazer nada. Ninguém iria trazê-lo de volta. Tirou nosso chão. A pergunta era: “Onde está o meu filho?” Eu só queria meu filho de volta. Ver as imagens daqueles containers só me causaram dor e revolta, custaram a vida do meu filho e de outros meninos que buscavam um sonho em comum.

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Durante 12 anos vivemos só para ele, em função do bem-estar dele. Era nosso filho, companheiro, amigo, nosso amor. Tenho certeza que Deus nos escolheu a dedo para que nós fôssemos seus pais, não há como medir ou calcular nosso amor por ele.
De repente você não pode mais abraçar, como fazíamos nas despedidas de suas férias, não pode mais ouvi-lo chamando “pai” ou “mãe”. Não temos mais as chamadas de vídeo, que fazíamos todas as noites. Dói não receber o bom dia no horário combinado, não ter a roupa suja de jogar bola para lavar. Dói não se alegrar com a risada gostosa quando tirava sarro de alguma coisa.
Fazer a comida que mais gostava, ouvir o hino preferido, assistir na TV o que ele gostava, isso tudo machuca. Não conseguíamos imaginar nossa vida sem o Gedinho, isso nos entristecia bastante, a vontade era só chorar e chorar. Nunca choramos escondido, sempre que vemos alguma fotografia ou alguém nos manda algo sobre ele, não contemos as lágrimas, inclusive, nosso filho Geraldo, de cinco anos, sabe que choramos pelo Gedinho e nos diz que também sente a falta do irmão.
Diante de tanto sofrimento sempre surgiam perguntas “E se eu estivesse lá?”, “Por que eu o deixei ir?” A gente tentava se culpar por erros que não foram nossos e que poderiam ser evitados.
Ainda nos abalamos quando a saudade aperta, ela vem, arrebentando e rasgando o nosso coração. O que nos dá forças é que temos um ao outro, choramos juntos. Tem dia que meu marido está mal, outros dias sou eu, vamos vivendo assim, um dia de cada vez, pois temos nossos dois filhos que precisam de nós.
Nossa vida não é mais como antes e, logo após esse turbilhão de sentimentos, e pensamentos, ainda tínhamos que resolver a questão do acordo. Nós optamos por fazer esse acordo logo no começo para evitarmos mais dores e tristezas, O fato de ter que ficar indo para o lugar onde nosso filho perdeu a vida não era nada fácil. Nos doeu muito, o fato de tentarem colocar valores em nosso filho, aquele que era nossa vida. A vida dele não tem preço, nada paga ou pagaria. Receber aquele valor não nos tornou ricos, nos deixou mais pobres, sem o nosso Gedinho.Nada do que a gente faça hoje tem graça, nada mesmo, e se fazemos, ainda assim, é pelos nossos pequenos, porque por direito também é deles. Esta ferida se cauteriza, mas sempre tem uma brechinha que sangra.

Tudo nesta vida tem um propósito e creio que nosso filho cumpriu o dele, e nós seguimos cumprindo o nosso, com a nossa dor, porque nisso tudo deve existir um propósito, diante de tanto sofrimento e, mesmo sabendo dessas coisas, nossa dor ainda é insuportável.

Choro e choro muito e o desespero quer invadir meu coração, mas logo vem ao pensamento aquele versículo bíblico em Genesis 5:24 que diz assim: “Porque Deus o tomou para Si.” Está no melhor lugar hoje e com as melhores companhias e sendo cuidado pelo melhor, o nosso Deus. Recebemos muitas orações de pessoas de outras religiões e muito carinho de pessoas que nem nos conheciam. Deus continua nos ajudando a suportar e passar por esses dias tão ruins que se não fosse Ele eu não sei onde estaríamos hoje. Já passado alguns dias do sepultamento do Gedinho, eu dobrei os joelhos no meu quarto e orei a Deus, disse que estava devolvendo o Gedinho a Ele, agradeci pelos quatorze anos maravilhosos.

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Temos contato com alguns pais dos outros meninos que estavam lá no CT Flamengo e ficamos mais próximos de alguns que já vinham desde o Atlhético Paranaense.
A dor de perder um filho supera qualquer outro tipo de dor. Quando você tem uma dor de cabeça ou uma crise de rins, toma um remédio e logo passa, mas, para a dor da perda, não existe nenhum remédio, dói na alma. É uma dor que é só tua. só você sabe o quanto machuca e o quanto dói.
Alguns meses atrás recebemos em casa umas pessoas do Flamengo, que vieram saber como estávamos e nos trazer uma lembrança do clube, referente aos dez meninos. Isso me causou uma euforia, quase igual a mesma de quando o Gedinho estava para chegar de viagem. Corremos o dia inteiro arrumando a casa e nos preparando para a hora que fossem chegar. Ao chegarem, tamanha foi a minha decepção com o que eu havia imaginado que seria, como se eles fossem trazer o meu filho para mim. No outro dia, eu chorei o dia inteiro. Sofremos muito e continuaremos a sofrer até o fim das nossas vidas.
Sabemos que vamos encontrá-lo para nunca mais nos separarmos e darei aquele abraço apertado que me foi tirado e vou poder ver o seu rostinho lindo, com aquele sorriso largo. Nós te amamos muito Gedinho e que bom que sabias disso.
Talvez eu entenda que o luto seja uma metamorfose como a das borboletas. O ovo – você morre por dentro e nasce uma outra Teresa, com outros pensamentos. A lagarta – absorve muita informação e ouve e guarda as palavras de consolo dos familiares e amigos. O casulo – prefere ficar no seu canto quieto, tirando um tempo para suas tristezas e mergulhos nas lembranças. A borboleta – pronta para encontrar com outras borboletas e ganhar o céu. Ainda vamos encontrar com pessoas que já tiveram perdas como a nossa e juntas serviremos de exemplo para outros.
Acredito que ainda estejamos no casulo e que precisamos viver esse luto que é só nosso. Como no filme “La Bamba, “O céu pertence às estrelas”.”

@lacoselutos_

@teresa3ggg

@bgedson

fc_gedinho11

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