
“Eu jamais poderia imaginar que se tratava de uma despedida.”
O desafio anual de celebrar a vida de um filho sem a sua presença.
Sou mãe de um filho único: Gabriel Leão, e hoje, 26/06, é o dia do seu aniversário.
Ele partiu deste plano terrestre há doze anos, no dia 17/01/2014, um jovem de apenas dezesseis anos. Um acidente de trânsito repentino o levou ao estágio mais grave do coma poucas horas depois de termos almoçado juntos. Era uma segunda-feira comum, férias de janeiro. Eu jamais poderia imaginar que se tratava de uma despedida.

“Lembro de estar em prantos, questionando como eu conseguiria viver sem o meu filho dali em diante.”
Após a confirmação da morte cerebral, adentrei a fase do entorpecimento e liguei o modo “sobrevivência”. Quinze dias depois do sepultamento, a ficha do cotidiano vazio já estava caindo e eu tive a sorte de estar na minha primeira sessão de terapia com a melhor especialista em luto que havia naquela época no Rio de Janeiro.
Lembro de estar em prantos, questionando como eu conseguiria viver sem o meu filho dali em diante, Adriana Thomaz acolheu-me com uma ternura inesquecível.

“Recordo bem do seu olhar compassivo ao explicar que eu jamais viveria sem o Gabriel porque isso era simplesmente impossível.”
Recordo bem do seu olhar compassivo ao explicar que eu jamais viveria sem o Gabriel porque isso era simplesmente impossível. Ela afirmou que eu aprenderia a viver com ele de outra forma e isso fez muito sentido para mim, embora eu não tivesse a menor ideia de como seria essa transformação na prática. Descobri que não precisava “deletar” meu menino.
Começava então o desafio de exercer a maternidade de modo diferente do que eu conhecia e dominava. Como sou grata por ter tido a orientação e o carinho da Dri, que ao mesmo tempo em que acolhia minha dor absurda, legitimava a maternidade como um estado irreversível. Cinco meses depois, chegou o dia do aniversário do Gabriel e, depois de muito pranto e desespero, ela conseguiu me mostrar que aquela data representava o dia mais feliz da minha vida, apesar de tudo.

“Confesso que perdi as contas de quantas vezes pranteei em desespero a dor física e existencial de não ter mais a presença do meu menino.”
Nessa mesma época, encontrei a Teresa Gouvea nas redes e posso dizer que ela foi a segunda pessoa mais importante no meu processo de elaboração do luto materno. Sua sensibilidade, respeito e profunda empatia alcançavam lugares sagrados que só o divino era capaz de tocar.
O luto é uma caverna escura e inóspita, cujo trato exige uma energia sobre-humana. Confesso que perdi as contas de quantas vezes pranteei em desespero a dor física e existencial de não ter mais a presença do meu menino comigo, afinal, ele tinha sido a realização do sonho da minha vida, ele era meu tudo.

“É humana porque nos confronta com o medo, o amor imenso, a impermanência, a dúvida, o desejo de proteger e controlar.”
Foi então que, diante da maior dor do mundo, entendi que ser mãe ou pai é a experiência mais divina e, ao mesmo tempo, mais humana que existe. É divina porque criar um filho é tocar o sagrado: gerar, parir, nutrir, ensinar e guiar é sentir o milagre acontecer diante dos nossos olhos. É humana porque nos confronta com o que há de mais vulnerável em nós: o medo, o amor imenso, a impermanência, a dúvida, o desejo de proteger e controlar.

“O amor por um filho não acaba com a morte, ele se transforma”
Quando um filho morre, essa experiência atravessa fronteiras que nenhuma palavra alcança. A dor rasga lugares que só quem sente conhece. A maternidade e a paternidade se tornam, então, uma mistura de realização e frustração.
O amor que segue vivendo, mesmo quando tudo mudou; porque o amor por um filho não acaba com a morte, ele se transforma, expande e, milagrosamente, encontra novos caminhos para existir e, cada mãe e pai enlutado carrega dentro de si essas verdades: o amor é divino; a dor é humana. Os extremos de uma mesma vivência e, ambos, caminham juntos na reconstrução possível após o dano.

“Voltar a viver em vez de sobreviver foram tarefas extremamente desafiadoras”
Aceitar a realidade da perda, processar os sentimentos incômodos do luto, adaptar-me à nova realidade duramente imposta pelo destino, transformar nossa relação a despeito do tempo/ matéria e voltar a viver em vez de sobreviver foram tarefas extremamente desafiadoras, mas com ajuda profissional, rede de apoio, fé, amor e outros recursos, eu posso afirmar que consegui.

“Não há como retroceder depois que se torna Mãe.”
Não precisei ter outros filhos (como muitos sugeriram) para concluir que sou uma Mãe tão realizada quanto qualquer outra. Porque ser Mãe é uma forma de estar no mundo após o acontecimento de um milagre, ser Mãe é converter-Se.
Não há como retroceder depois que se torna Mãe. Não há como desconhecer os sentimentos sagrados que desabrocham em si diante da concepção, do parto e do colo oferecido ao seu bebê. É impossível destransformar-se.

“Permanecer celebrando a vida desse filho sem a sua presença física é o grande xeque-mate desse ofício.”
Assim, estando o filho presente ou não, esses pais jamais retornarão ao estado anterior à sua presença. Eles carregam consigo, no corpo e na alma, algo que é da ordem do divino, do criador propriamente dito e esse conhecimento pertence a esses pais, ele lhes é legítimo pois trata-se de um lugar conquistado e, diga-se de passagem, com muito gosto.
Permanecer celebrando a vida desse filho sem a sua presença física é o grande xeque-mate desse ofício. A forma como os pais encaram a data do nascimento de seu rebento pode (e merece) ser interpretada como o início da melhor experiência da existência e, aqui, cabe toda atenção e cuidado do mundo, para que esse dia lindo e mágico do dar à luz não se transforme em um evento trágico uma vez que a realidade da ausência física contrasta absurdamente com o encanto inicial.

“No meu caso, escolhi não permitir que a morte do Gabriel fosse mais importante do que sua existência”
No meu caso, escolhi não permitir que a morte do Gabriel fosse mais importante do que sua existência e, por isso, todos os anos ritualizo o dia 26 de junho fechando os olhos, respirando fundo e me transportando lá para a sala onde foi realizado o meu parto.
Consigo lembrar do sentimento que me encobriu por completo quando meu neném foi colocado no meu colo pela primeira vez, ao sair da minha barriga, cheio de “pozinho celestial” ainda. Admirei seus olhinhos abrindo e fechando, tão inocentes… e aquele foi o momento mais mágico de todo o meu viver e, por isso, elegi esse evento como o momento âncora da minha vida, de onde tiro forças para prosseguir e permito-me ser invadida pelo amor materno inundado de uma divindade inexplicável, que faz com que TUDO tenha valido a pena.
(Autoria: Amanda Tinoco)
@psi.amandatinoco
@lacoselutos_



















