Filho, jamais esconderei sua existência

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Screenshot“Existem dores que transformam completamente quem somos.”

“Me chamo Marina, tenho 33 anos. Me despedi fisicamente do meu filho 09/08/22, em decorrência um câncer raro, Neuroblastoma, aos três anos e quatro meses.

Heitor me tornou mãe. Meu primeiro filho. E talvez meu único filho. Ainda não sei. Depois de tudo o que vivi, ainda não tenho respostas sobre maternar novamente, e tudo bem. Existem dores que transformam completamente quem somos e a maternidade atravessada pelo luto muda nossa forma de enxergar a vida para sempre.

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“Mesmo tão pequeno, carregava uma força gigantesca dentro dele. O Heitor era amor em sua forma mais pura.”

Heitor era um menino extremamente doce, amoroso e cheio de luz. Heitor é o meu sol, os cabelos cacheados dele eram dourados. Tinha um olhar calmo, um jeito meigo e uma sensibilidade difícil de explicar. Era uma criança carinhosa, inteligente e profundamente conectada ao amor e à natureza.

Ele gostava de música, de abraço, de carinho e tinha a capacidade de transformar qualquer ambiente apenas com sua presença. Também era apaixonado por dinossauros, por isso o chamávamos carinhosamente de “Heitor Dino”. Mesmo tão pequeno, carregava uma força gigantesca dentro dele. O Heitor era amor em sua forma mais pura.

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“Vi meu filho perder os cabelos, o corpinho enfraquecido, o cansaço de quem já não aguentava mais. E, ainda assim, o Heitor continuava sendo luz.”

Quando recebeu o diagnóstico de Neuroblastoma, nossa vida mudou completamente. O Heitor tinha apenas dois anos e quatro meses. Foram onze meses de uma luta intensa contra uma doença cruel e devastadora. Durante o tratamento, eu vi meu filho enfrentar dores e situações que nenhuma criança deveria viver. Vi procedimentos invasivos, sofrimento físico, internações intermináveis e uma batalha diária pela vida.

Vi meu filho perder os cabelos, o corpinho enfraquecido, o cansaço de quem já não aguentava mais. E, ainda assim, mesmo na doença, mesmo careca, mesmo exausto, o Heitor continuava sendo luz.

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“Muitas vezes era ele quem me consolava.”

Nos momentos mais difíceis, ele conseguia sorrir, demonstrar amor e transmitir força para todos ao redor. Muitas vezes era ele quem me consolava. No penúltimo dia de vida dele, o Heitor estava há muito tempo em jejum. Eu também não queria comer para não deixar meu filho com vontade. Em determinado momento, uma enfermeira entrou no quarto e deixou uma bandeja de café sem perceber a placa na porta avisando sobre o jejum dele. Eu imediatamente disse que não precisava deixar, que eu não ia comer. Então, meu filho, com apenas três anos de idade, olhou para mim e disse: “Toma café, mamãe. Come.”

Até hoje eu me pergunto como uma criança tão pequena podia ter tanta sensibilidade. Mesmo sentindo dor, mesmo cansado, mesmo enfrentando tudo aquilo, ele ainda se preocupava comigo. Esse era o Heitor.

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“A partida dele, no dia 09/08/22, levou embora uma parte de mim também.”

Existem lembranças que permanecem vivas em mim todos os dias: as mãozinhas no meu rosto, os abraços apertados, a vozinha dizendo “te amo, mamãe”. O Heitor me fazia sentir a mulher mais abençoada do mundo por ser mãe dele. A partida dele, no dia 09/08/22, levou embora uma parte de mim também.

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“As pessoas acreditam que o tempo ameniza, mas a verdade é que aprendemos apenas a sobreviver carregando a ausência.”

Perder um filho é viver uma dor que não tem nome. Uma dor física, emocional e espiritual. Uma ausência que atravessa o corpo inteiro. O luto parental é silencioso, profundo e permanente. As pessoas acreditam que o tempo ameniza, mas a verdade é que aprendemos apenas a sobreviver carregando a ausência.

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“A maternidade não acaba quando um filho se vai. O amor continua vivo, intenso,  mas sem as tarefas. Sem o banho, sem os remédios, sem ouvir “mamãe”…”

A maternidade não acaba quando um filho se vai. O amor continua vivo, intenso, pulsando, mas sem as tarefas. Sem o banho, sem os remédios, sem ouvir “mamãe”, sem colocar para dormir, sem sentir o peso do corpinho no colo. Muitas vezes me sinto vivendo em um metaverso, como se o mundo tivesse continuado normalmente para todos, enquanto dentro de mim tudo tivesse parado no tempo.

A saudade aparece em tudo: nas músicas, nas datas especiais, nas comidas, nos sonhos, nas crianças brincando e até nos pequenos detalhes da rotina. Existem dias em que consigo sorrir, trabalhar e seguir funcionando. Mas dentro de mim sempre existirá a dor de não poder abraçar meu filho novamente.

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“Eu percebi que não existia outro caminho possível além do amor. Foi o amor do Heitor que me mantém e me manteve viva.”

Existem dias em que sinto raiva e dias em que questiono Deus. Sou cristã, mas no início da perda tentei fugir da fé porque a dor era grande demais para caber dentro de qualquer explicação. Tentei ir para o ateísmo, tentei fugir da esperança e também tentei tirar minha própria vida, porque naquele momento parecia impossível sobreviver à ausência do Heitor, mas no meio do abismo, eu percebi que não existia outro caminho possível além do amor. Foi o amor do Heitor que me mantém e me manteve viva.

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“A terapia também foi fundamental para o meu casamento, porque o luto parental impacta todas as relações.”

Nesse processo, a terapia teve um papel essencial na minha sobrevivência emocional. Minha psicóloga me ajudou a atravessar os momentos mais escuros da minha vida, a organizar pensamentos que pareciam impossíveis de suportar e a entender que eu precisava continuar vivendo sem abandonar o amor pelo meu filho. A terapia também foi fundamental para o meu casamento, porque o luto parental impacta todas as relações. Cada pessoa sofre de uma forma, em tempos diferentes, e aprender a atravessar essa dor juntos exige acolhimento, escuta e ajuda profissional. Serei eternamente grata a Dra Thaís Thuler.

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“Não escondo a existência do meu filho para proteger o desconforto dos outros.”

Hoje entendo que pedir ajuda não é fraqueza. É sobrevivência. Hoje sou outra Marina, e sei que nunca mais serei a mesma de antes, porque a Marina que existia antes também se foi com o Heitor. Ainda assim, sigo tentando honrar a memória do meu filho todos os dias
Hoje entendo que sou guardiã da memória do meu filho. Um lugar muito precioso, que poucos tem acesso. Eu falo dele, sim. Incluo o nome do Heitor nas conversas, sim. Não escondo a existência do meu filho para proteger o desconforto dos outros.

Falar do Heitor não me machuca, me mantém viva, me mantém mãe, me mantém ligada a ele. Eu sei que ele não vai ler, mas escrevo cartas para ele. Isso me ajuda a aliviar um pouco a saudade.

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“Não falar dos nossos filhos seria como enterrá-los novamente.”

Compartilho dessa dor e amor, num espaço de acolhimento por meio do Instituto que leva o nome do meu filho, oferecendo apoio a crianças oncológicas e suas famílias, e também por meio da nossa comunidade de acolhimento a pais enlutados, onde realizamos partilhas sobre o luto parental, oferecendo escuta, apoio emocional e um espaço seguro para quem aprendeu a sobreviver depois da perda de um filho.

Eu sempre falo sobre o meu filho. Muitas pessoas evitam falar sobre ele, talvez achando que vão me fazer sofrer, mas a verdade é que não existe como sofrer mais do que uma mãe que perdeu um filho já sofre diariamente. Não falar dos nossos filhos seria como enterrá-los novamente.

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“Meu filho existiu. Meu filho existe.”

Falar sobre o Heitor me traz pertencimento. Quando alguém me diz “feliz Dia das Mães” ou “você é mãe do Heitor e sempre será”, ou quando alguém fala o nome dele, isso não me entristece. Pelo contrário. Me faz sentir vista como mãe, porque eu sou mãe. Eu gerei meu filho… Meu filho existiu. Meu filho existe.

Sempre será MEU.

Autoria: Marina França

@institutoheitorfranca
‘@lacoselutos_

1 comentários

  1. Ele foi um heroi e eu vivi e convivi com vcs filha e sei q vc é uma mãe maravilhosa q transbordou todo amor por ele ..te amonao nosdo bb dino lindo da vovó matiá ❤️

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