“Filho, juntos no começo, juntos no final”

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Que amor é esse que arranca forças inimagináveis? Na travessia de Gustavo, do diagnóstico até sua partida, a mãe que fica, suporta o que foge de perspectiva de qualquer mãe, ver um filho partir , “mesmo que a minha vontade fosse sair correndo daquele hospital gritando”, o filho que faz essa travessia aconchegado no abraço da mãe que promete o amparo, em qualquer momento, “quando os desafios da vida apareciam, a gente se abraçava e dizia que estaríamos juntos, para sempre e que amávamos muito um ao outro”. As memórias, que foram colecionadas, não somente em 2018, mas em doze anos de amor, que são para sempre de Fabiana e do “raro menino que amava viver”, “hakuna matata”, Gustavo, diariamente!

O ano de 2018 ficará em minha memória para sempre. Um ano de alegrias e de dores. Me recordo de virar para o meu filho e dizer: ‘’Vamos viajar muito esse ano, colecionar memórias para sempre’’ e, assim fizemos, sem saber que já era uma despedida. Nesse mesmo ano começaram a aparecer manchas roxas pelo corpo e um sangramento no nariz, que nos fez ir para o pronto socorro. Depois da investigação e de duas biópsias de medula, o diagnóstico chegou: Meu único filho de 12 anos tinha uma doença rara na medula óssea chamada Aplasia de medula ou anemia aplásica grave, ou seja, ela entrou em falência e o organismo não produzia células sanguíneas suficientes. Além de remédios imunossupressores, internações e muitos exames, meu filho precisava de sangue e de plaquetas para continuar vivendo.

A realidade dos hospitais, de transfusões sanguíneas e transplante de medula óssea me atingiram literalmente como um punhal. Meu filho sempre foi alegre, bem disposto, cheio de energia e intenso. De uma hora para outra, tudo mudou. Ele se cansava com facilidade e eu já sabia que os exames viriam com todas as taxas baixas e ele necessitaria novamente de mais e mais transfusões para se manter bem e de pé. Precisou de sangue e plaquetas até o último dia de vida dele e só esteve ao meu lado durante um ano e três meses graças à generosidade e empatia de pessoas conhecidas e que eu nem chequei a conhecer, e a elas serei eternamente grata.
Como a medula óssea não voltou a funcionar, as internações ficaram frequentes e as infecções eram um risco muito grande, então ele foi encaminhado para o Transplante de Medula óssea em outro Estado porque o nosso de origem não tinha. Fizemos todos os exames e nos preparamos para o grande dia. Uma equipe maravilhosa cuidou dele com todo amor e carinho que um filho amado e honrado merece ser tratado. A medula pegou no décimo oitavo dia. Comemoramos muito. Ele merecia uma festa antes de partir e ela foi linda com música, bolas, fantasia…tudo que ele mais gostava. Enfrentou tudo com garra e determinação, mas vieram complicações no pós- transplante e depois de três meses internados, incluindo 21 dias na UTI, meu filho, meu sol, meu companheirinho de viagem partiu para renascer em outra existência no dia 30 de janeiro desse ano.
Até hoje lembro dos meus gritos de dor entoados pelo quarto frio do hospital durante seus últimos momentos de vida. Eles vinham da alma! Eu prometi a ele que sempre estaríamos juntos, mas eu não esperava e nem estava preparada para esse fim. A enfermeira me chamou para segurar sua mão em seu último minuto e eu segurei. Juntos no começo e juntos no final. Quando os desafios da vida apareciam, a gente se abraçava e dizia que estaríamos juntos, para sempre e que amávamos muito um ao outro. Eu sempre ia no ouvido dele na UTI e dizia: ‘’Mamãe está aqui e não irei te deixar’’, mesmo que a minha vontade fosse sair correndo daquele hospital gritando. Eu sempre tive medo da dor, mas ela chegou sem nenhuma anestesia para mim. Depois dos gritos, o silêncio e uma aparente resignação, abracei a todos, resolvi burocracias, doei as roupas que havia levado para o hospital e também medicamentos que já havia comprado, esperando que ele fosse para casa. Era isso que ele iria querer que eu fizesse. Não tive dúvidas. A mesma generosidade das pessoas com ele era a mesma que eu deveria ter para com as outras pessoas e crianças, mesmo em meio à dor que eu sentia.
Quando entrei na minha casa novamente, a realidade também veio com ela. Como eu ia sobreviver sem meu filho? Era tanta dor que eu achei que estava ficando louca. Eu não tinha como fugir dela, então gritei, chorei, desesperei nas madrugadas, questionei, me culpei, fui egoísta em relação ao Transplante de Medula óssea, mas hoje posso dizer em alto e bom som: ‘’não é porque não deu certo para meu filho que não dá certo para muitas outras crianças’. Eu vi muitas que tiveram uma chance de viver novamente através do transplante de medula e estão hoje muito bem e com seus olhinhos brilhantes fora do ambiente hospitalar. Tudo isso aconteceu porque eu achava que podia controlar a única coisa que não se pode controlar, a finitude da vida.
Voltei para terapia, grupos de apoio e também procurei por muitas histórias de mães que haviam perdido seus filhos e páginas que trabalhavam o luto. Comprei livros, via vídeos e relatos para saber que eu não estava só e realmente eu descobri que não estava. Ainda estou aprendendo. A dor é grande, insuportável e dilacerante. Tem dias que está quieta, mas basta um gatilho, para que ela volte com toda força como no dia da partida. Por isso escrever tem sido um refrigério para essa alma angustiante e uma libertação nos momentos em que me sinto sozinha. Todas as histórias que passaram por mim, tanto da realidade de mães que ainda lutam por seus filhos nos hospitais e de mães de anjos, me ajudaram e me ajudam a levantar a cada dia. Quando eu penso que não vou aguentar ou desistir, eu olho para elas e fecho meus olhos e me recordo do olhar do meu filho sobre mim. Ele acreditava em mim, ele via o que eu tinha de melhor e ele não gostaria que eu desistisse da vida porque ele amava viver e lutou por ela até o fim.
Em sua lápide escrevi: ‘’O Menino Raro que amava viver’’. É isso que ele era. Um dos significados de transplantado é mudado e como escrevi em um texto meu: Sou eu que fui transplantada para sempre: no amor, na dor, na luta e na minha tentativa de recomeço. Sua vontade de viver, seu jeito de amar a vida, os corações que ele tocou com sua história, as pessoas que ele sensibilizou para doação de sangue e plaquetas, que não serviram só para ele mas para salvar a vida de tantas outras, os cadastros para serem doadores de medula óssea, não podem ser esquecidos. Sempre questionei o porquê meu filho foi morrer longe de casa e das pessoas que ele mais amava. Cada dia me convenço mais que ele foi para cumprir sua missão, e eu, fui para começar a minha.
Fabiana Magalhães, mãe eterna do Gustavo, o menino raro que amava viver…

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