Jamais esquecerei, um só dia, do meu filho…

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Como uma mãe esquece um filho? Em que lugar isso seria possível? Não, não é, nunca será… Vinicius Piccoli, o piá que tinha sonhos, alçou voos, levando a roça dentro dele. O menino que, moço grande, se conectava com a mãe o tempo todo, cuidando dela de onde estivesse. Carmen, essa mãe que reside em tantas mães, na travessia de fé e desespero, acreditando, até o último instante, na cura, afinal, nunca será justo que um filho parta antes dos pais. O amor é tanto que ela entrega, “se você quiser partir, eu, tua mãe, te libero pra sair desse sofrimento, mas, se você quiser, fique conosco, então, agora é com você e Deus. Obrigada por tudo e perdão se a mãe fez algo que te desagradou. Vou te amar para sempre.” 

(Autoria: Carmen Bortoncello, mãe eterna do Vinicius Piccoli)

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“Sempre que chegava em um lugar diferente procurava conhecer um lugar sagrado para meditar suas orações, tinha uma espiritualidade muito forte, crente e temente a Deus.”

“Vinicius fazia tudo com pressa, para ontem, parecia que sabia que tinha pouco tempo de existência nesse plano terrestre. Em onze anos voou para dezessete países, saindo de uma cidade com pouco menos de vinte mil habitantes. O piá humilde da roça, como todos diziam, e ele mesmo fazia piada: “Eu sai da roça, mas a roça não saiu de mim “. Sempre que chegava em um lugar diferente procurava conhecer um lugar sagrado para meditar suas orações, tinha uma espiritualidade muito forte, crente e temente a Deus. Sei que ele jamais queria me ver sofrer! O que me conforta um pouco é saber que ele foi de uma beleza rara por fora e, internamente, uma beleza gigantesca. Um ser humano bom, de uma humildade sem tamanho.

Vinicius viajou pra África do Sul em 01/2020, após ter passado as festas conosco em família, para cumprir um contrato de trabalho que estava querendo muito, depois não mais tanto, mas, meu filho não descumpria seus compromissos. Eu também não gostei muito da ideia, mas, enfim, foi para tantos lugares, seria mais um. Ao deixá-lo no aeroporto, sempre chorávamos nas despedidas, mas meu esposo me disse que eu estava mais desesperada que o normal. Vinicius havia voltado da Europa em 12/2019 com uma coriza. Insisti pra irmos ao médico, ele me tranquilizou dizendo que teria sido do clima da Europa, mais o ar condicionado do avião. Insisti várias vezes, eu, meu esposo, até os tios. Como só era uma coriza e não havia dor, achou que fosse uma sinusite. Dei alguns chás e remédios caseiros para a “sinusite” e pedi para procurar um médico assim que chegasse em São Paulo. Enfim, viajou.

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“Conseguimos uma passagem com uma escala de sete horas, para aumentar o desespero. Eu falando com ele e me comunicando com o médico aqui, veio de chinelo, nada mais cabia nele.”

Chegando na África, queixou-se do aumento da coriza. Novamente insisti para ir ao médico. Tinha seu lado teimoso. Postergou. No dia 16/02/2020 me ligou, de madrugada, assustado me mostrou a barriga, toda inchada, uns doze quilos de inchaço da noite para o dia, sem dor. Fui ficando desesperada, fiz um monte de perguntas, sobre o que comeu na noite anterior, o que fez, como fazia muitas trilhas nas montanhas, perguntei se algum bicho havia mordido, enfim, muitas perguntas. Pedi para não ficar sozinho e ir ao médico, me enrolou mais três dias. Foi ao médico e diagnosticaram como infecção urinária. E nós, na insistência, vem pra casa, vem pro Brasil, isso não é normal. O desespero tomou conta e ele não querendo vir, achando que não seria nada grave.

Para ajudar, início da Pandemia pelo Covid19 , deu mais de uma semana da decisão de vir e conseguir voo para o Brasil, ainda lidou com os cancelamentos de contratos e contratar novas passagens , tudo isso somava na sua decisão, no caso prejuízo . Eu insistindo. Conseguimos uma passagem com uma escala de sete horas, para aumentar o desespero. Eu falando com ele e me comunicando com o médico aqui, veio de chinelo, nada mais cabia nele.

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Quando o vi, estava todo deformado pelo inchaço. Fomos ao hospital, internou e fez uma bateria de exames, só apareceu “sinusite “, foi medicado e fomos para casa aguardar os outros resultados. Os exames ainda não estavam prontos e começou a sangrar pelo nariz. Retornamos ao hospital. Eu, desde o primeiro dia pedindo ressonância e os médicos dizendo que não precisava! Resultados dos exames, todos negativos. O médico solicitou a ida ao infectologista. Lá fomos nós! Mais exames. Vinicius passando mal. Internou.

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” Voltei para casa, desesperada, meu filho cada vez pior.”

Apresentou ferida na boca, sempre com uma toalha no nariz porque a coriza só aumentava e o infectologista nem “dava bola”. Um residente fez perguntas preconceituosas, só porque meu filho era modelo e tinha hepatite B, que havia sido herdada da minha gravidez. O médico infectologista chegou a uma conclusão (sem exames) disse que ele estava com cirrose hepática e tinha que ir para um transplante. Tenho todos os encaminhamentos e falas que provam o preconceito. Ficaria muito extenso para relatar aqui, enfim, com diagnóstico e remédio errado (caríssimo), conseguido através de mobilização. Mandou meu filho pra casa, eu, mãe, desesperada e preocupada sem entender aquele diagnóstico, pois conhecia meu filho, não tínhamos segredo. Perguntei ao infectologista que dieta deveria seguir. Respondeu, “pode comer de tudo, menos cimento” Voltei para casa, desesperada, meu filho cada vez pior.

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“Ele tinha esperança e confiança em melhorar e seguir a vida, isso o deixava sempre motivado, apesar das dores que começava a sentir na cabeça e também nos pés.”

Fomos a um médico em outra cidade, também desconsiderou a coriza, porém, os exames que ele solicitou ajudaram a ter um diagnóstico em onze dias, que atrasaram porque ele convulsionou. Duas biópsias, várias ressonâncias e a fala do médico “mãezinha, acho que você me trouxe ele tarde demais, não sei se vamos conseguir salvar.” O diagnóstico: Esthesioneuroblastoma, com síndrome de Cuching.

O desespero e a fé nos acompanhavam, houve correntes de orações de amigos, comoção nacional e internacional, onde ele era conhecido e tinha amigos, mas a Síndrome não deu trégua. Atacou tudo, várias intercorrências, ficou imunossuprimido. Foram quatro cirurgias no pulmão e mais de dez na cabeça. Vinicius oscilava, umas vezes orientado, outras desorientado ou infantilizado e, assim, seguiu a saga, CTI, quarto, quarto, CTI. Ele tinha esperança e confiança em melhorar e seguir a vida, isso o deixava sempre motivado, apesar das dores que começava a sentir na cabeça e também nos pés. Morfina, muita morfina, para aliviar as dores que surgiram depois da cirurgia.

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“Eu pedia para piscar e ele respondia com lágrimas caindo.  Horrível, uma imagem que não apagará nunca. Remédios e sedativos, ele não respondia mais.”

Em 09/2020 eu e o pai dele tivemos COVID. O desespero tomou conta, tive que ficar longe dele. Vinicius, apesar de testar negativo, foi para a ala do COVID. Minha irmã permaneceu com ele, nos falávamos de meia em meia hora. Até o dia em que ela me ligou e disse “tá caindo a pressão e não faz xixi”. Ele estava muito mal, passamos a noite com vários enfermeiros e médicos no quarto. Resultados sempre negativos, mesmo assim, foi para a CTI do COVID. Proibiram as visitas e ele foi chorando. A psicóloga auxiliou que falássemos algumas vezes por vídeo. Após vinte e três dias deixaram que eu visse meu filho. Conversei com ele, entubado e com traqueostomia. Eu pedia para piscar e ele respondia com lágrimas caindo.  Horrível, uma imagem que não apagará nunca. Remédios e sedativos, ele não respondia mais.

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“Se você quiser partir, eu, tua mãe, te libero pra sair desse sofrimento, mas, se você quiser, fique conosco, então, agora é com você e Deus. Obrigada por tudo e perdão se a mãe fez algo que te desagradou. Vou te amar para sempre.”

Num domingo de manhã solicitaram que fossemos ao hospital. Meus filhos foram conosco, não tinham com quem ficar. Informaram que ele estava fazendo morte cerebral. Os irmãos foram vê-lo. Entrei na visita e me despedi dele, disse “filho, eu não tenho mais como te pedir pra ser forte, muito injusto, você já deixou teu legado e teu lindo exemplo para os manos e para todos que conviveram com você. Se você quiser partir, eu, tua mãe, te libero pra sair desse sofrimento, mas, se você quiser, fique conosco, então, agora é com você e Deus. Obrigada por tudo e perdão se a mãe fez algo que te desagradou. Vou te amar para sempre.” Pedi pro meu esposo fazer o mesmo.

Dia 14, quarta. Meu mundo desabou. Não tem como explicar tudo e consolar marido e filhos, comunicar a família, contratar translado. Lacrado, sem vestir, sem despedidas, sem velório. Ficar a noite sozinho no necrotério. É um misto de revolta e injustiça.

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“Enquanto eu respirar vou me lembrar de você, só enquanto eu respirar. Até breve, meu filho, Carlos Vinicius Piccoli. Meu guerreiro.”

Recomeçar sem o Vinicius é uma batalha diária, ele era muito presente em nossas vidas. Todos os dias, todas as horas, de conexão em conexão. Sabíamos de cada passo, porque ele não queria me preocupar. Sigo com alguns projetos. Estou escrevendo o livro, “O Último Voo”, que era um de seus projetos e não houve tempo, entre tantas outras coisas: sonhos idealizados e não concretizados. Me sinto nesse compromisso, de escrever pelo filho maravilhoso que foste e me deu tanto orgulho nesses trinta anos que passou por aqui. Os manos seguindo no futebol, escola, pai no mesmo trabalho. Tudo ele incentivava. Ganhamos a Esperança, uma Golden que Vinicius pediu muito no hospital. Era o sonho dele. Dei uma ajeitada no pátio me ocupando com flores e, assim, vou vivendo um dia de cada vez, porque sei que cada dia é um a menos para o reencontro com meu filho.

Ninguém está preparado para perder alguém, serei uma mãe amputada até o fim dos meus dias! Jamais esquecerei um só dia do meu filho! Enquanto eu respirar, vou lembrar e chorar a falta dele! Ele sempre me dizia no hospital, “tô de pé na patrola”. eu também estou: por ele, para honrar seu nome e seu legado, pelos seus irmãos, que te adoram e te levam como exemplo pra toda vida. Sempre tive orgulho da paixão que eles tinham um pelo outro e sei que sempre terão. De pé por mim também, sei que ele quer que eu esteja bem e que prepare o caminho para o nosso reencontro.
“Enquanto eu respirar vou me lembrar de você, só enquanto eu respirar. Até breve, meu filho, Carlos Vinicius Piccoli. Meu guerreiro.”

Instagram:

@lacoselutos_

@viniciuspiccoli

@carmenbortoncello

6 Comentários

  1. Juliana Verginia Bortolin Marzari

    Tbm perdi meu filho e minha filha nora, em um acidente de moto. Ainda não entendo bem oque aconteceu. Mas vivo cada dia pelas minhas duas filhas e por mim, até que nos reencontraremos.

    • Juliana, sinto muito por seu filho e sua nora, que você encontre paz na sua travessia… um grande abraço

    • Carmen Rita Bortoncello

      Sinto muito por seu filho e nora! Uma dor interminável. TMJ abraço solidário à você .

  2. Felipe Zervelis

    Muita força guerreira!
    Você é um ser humano abençoado.
    Meu namorado acabou de me apresentar a história de vocês. Sou muito sensível e ele me pediu para não ler, não ver. Mas acho que ao mesmo tempo é um verdadeiro exemplo de vida ! Você como mãe e ele como filho!
    Parabéns por compartilhar sua vida com a gente. Deixar que a gente sofra junto a vocês e permitir que a gente se emocione e busque sempre um diagnóstico breve que nos permita sempre duvidar dos médicos. Minha mãe já foi desenganada por um dos melhores médicos do Rio de Janeiro que disse: câncer em estágio terminal (e teve a palavra acompanhada por mais 4 médicos). Resultado? Era Tuberculose. Descobriu no meio da cirurgia. Está comigo sã, 100% recuperada.
    Tenho certeza que cada dia que passa é um dia a menos sim para esse grande reencontro!
    Vocês são guerreiros
    Muita saude e paz para toda a família!

    • Que mensagem mais terna, Felipe, emocionada aqui…

    • Carmen Rita Bortoncello

      Obrigada Felipe pelas lindas palavras. recebi todo teu carinho. Gratidão Eu não quero que sofram . Mas quero que conheçam a trajetória do meu guerreiro Vinicius e que que também não fechemos os olhos diante de diagnóstico precipitados . Feitos em toque de caixa . Sem detalhar com muitos exames colher a opinião de mais profissionais. E tentar ajudar as pessoas quanto aos sintomas. Ficar ligado . Pq os médicos erram , ou por serem humanos , ou preconceito , ou por descaso . .grande Abraço

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