Mães para sempre: a despedida de um filho

1239

(Autoria: Ivone, mãe para sempre)

14721682_1812645402310483_2989757735683140440_n

A trajetória de uma mãe na despedida, Ivone relata seu luto na despedida e nos dias que seguem, seu encontro com a paz e o amor, na saudade e na dor, a aprendizagem de amar quem não tocamos, “uma mãe nunca esquecerá seu filho, será sempre seu primeiro pensamento ao acordar e o último pensamento ao dormir, será assim até o ultimo dia de sua vida.
Tudo terminou e tudo começou no dia 23. Era uma sexta-feira de 2014, minha filha saiu para trabalhar, despediu-se do pai e nunca mais voltou, na memória seus passos apressados pela casa, sempre saindo em cima da hora. Chegou na creche onde trabalhava e, dentro do estacionamento, uma arma na cabeça, saiu do carro e, enquanto corria, pediu para os funcionários entrarem, o ex-namorado efetuou seis disparos, um a acertou, atingida pelas costas, na região do coração. No pátio, caída, a última frase, “dói muito, está queimando”. Ao cair, minha heroína, evitou que ele adentrasse mais e atingisse outras pessoas.
Ali, Simone se despedia deste mundo, terminava a sua história e começava o maior desafio da minha vida. No caminho para o hospital o único pensamento é que ela estaria viva, na chegada a notícia do falecimento, minha única reação “quero sair daqui, quero sair daqui! ” Não conseguia vê-la, chorar, correr ou me desesperar, tão irreal que gerava apenas perplexidade, eu, incrédula, anestesiada, catatônica.
Durante o velório, fiquei o tempo todo sentada do lado do caixão olhava e não acreditava no que via, parecia dormir, sua irmã solicitou que estivesse como sempre gostou, maquiada, com uma roupa linda, corrente e anel, vaidosa no seu para sempre. No velório tudo tão confuso, tantas imagens apagadas. Dei meu adeus e retornei para casa, ali começava meu calvário, tudo tão irreal, difícil e injusto, fiz perguntas para Deus, tentando entender porque não protegeu minha filha, mas tudo isso passou, não briguei com Ele.
Veio o primeiro dia sem a Simone. Olhava pela janela da sala esperando o clarão do farol do carro dela iluminando tudo, mas isso nunca mais aconteceu. Na sua partida fui jogada dentro de um buraco bem fundo, escuro e sem saída, me via lá dentro, com os olhos fechados, indefesa, impotente, com medo e sem saber o que pensar, falar e fazer. Um sofrimento indescritível tomou conta da minha vida, conheci um choro compulsivo e desesperador, não queria comer, não tinha vontade de nada, só cabia falar dela e do que aconteceu ou ficar em silêncio. O mundo lá fora ficou grande demais para mim, não conseguia entender as pessoas estarem felizes como se nada tivesse acontecido, era injusto demais, e eu, aqui dentro deste meu mundo de dor e sofrimento, mas, ao mesmo tempo, pensava que a perda era minha e só eu poderia estar sentindo esta dor.
Inicialmente, as pessoas ficaram por perto, mas, depois, voltaram para sua rotina, tentavam estabelecer um tempo para que eu ficasse bem e voltasse à vida que não tinha mais, como se isso fosse possível. O tempo é muito longo num caminho difícil e tortuoso e é você quem define,
Não critico as pessoas, nem sempre sabem o que falar ou fazer. É difícil entender o que não se mensura, respeitar e escutar é o melhor que podem fazer, mas isso nem sempre é possível. Existe indiferença e afastamento da maioria das pessoas.
Busquei todos os tipos de ajuda, Deus, livros, filmes, terapia, e tudo o que fosse possível, sozinha eu ficaria no escuro da dor, neste buraco profundo. Decidi que não queria isto para minha vida. Tudo que eu fizesse ou deixasse de fazer não traria Simone de volta. A vida continuava apesar de arrancarem um pedaço de mim. Eu fiquei, decidi que sofreria tudo o que tivesse que sofrer. Pouco mais de um ano após sua morte veio o julgamento, de frente com o homicida da minha filha, passou um filme na minha cabeça, ouvi fatos que eu desconhecia, horas muito difíceis, mas eu precisava fechar esse ciclo, não sentia arrependimento na fala dele, sentia que ele, num momento de ódio e rejeição, levou minha Simone, após um não, decidiu que ela não poderia ficar. Tive uma recaída, mas já sabia sair do buraco, tive dias de um passo para frente e dias de dois passos para trás, mas sem nunca desistir de encontrar o “meu melhor! Dentro do considero saudável para minha vida. O tempo foi necessário e imprescindível para que isso acontecesse, me ensinou todos os dias, briguei muito com ele, mas aprendi a aceitar a partida da Simone, que havia chegado o seu tempo e que eu não podia fazer nada para impedir sua partida. Aprendi a agradecer a Deus e amar quem a gente não vê, amar a ausência, descobri em mim uma mãe apaixonada, descobri que o amor de uma mãe que perde um filho é puro, genuíno, não cobra presença, é incondicional e eterno. Aprendi que, através desse amor, mantemos um filho dentro de nós, uma mãe nunca esquecerá seu filho, será sempre seu primeiro pensamento ao acordar e o último pensamento ao dormir, será assim até o ultimo dia de sua vida.
Às vezes me permito recaídas, mas sigo, sei que posso chorar quando aperta o coração para me acalmar, sei que posso falar da minha filha, aliás, preciso falar dela, conforta meu coração. Descobri que são poucos os que aguentam ouvir e respeitam minha dor. Nunca mais fui ou serei a mesma, minha vida mudou. O quarto da Simone foi um grande desafio, ficou fechado durante 02 anos e 03 meses, mas um dia resolvi abrir e me desfazer de todos os seus pertences. Consegui transformar o meu sofrimento em amor, a conviver com minha dor de maneira pacífica e tolerante, a experimentar uma paz que cada vez mais está presente em minha vida. A Simone é minha filha linda, minha filha amada, meu presente de Deus a quem agradeço sempre. Ela tinha uma alegria contagiante, era bondosa e caridosa, tinha um brilho próprio. Sua passagem foi breve, mas deixou sua marca e luz onde passou. Será nossa eterna estrelinha. Hoje sou a saudade e a dor, sou paz e amor, sentimentos que procuram viver de maneira harmoniosa e respeitosa dentro do meu coração, prevalece o AMOR, sempre.
(Ivone dos Santos, mãe para sempre da Simone)

1 comentários

  1. Ivone dos Santos

    Sou a mãe da SImone dos Santos, minha filha que se foi há 05 anos. Neste més de maio de 2019 lá se vão longos 05 anos de saudade e amor. O tempo amenizou o sofrimento, trouxe paz ao meu coração e fez com que minha vida continuasse . Uma vida modificada, incompleta, mas uma vida em que hoje incluo aceitação, agradecimento, perdão e muito amor e saudade que preencho meu coração de mãe.. Ver um filho partir é a maior e a pior prova em que mãe é submetida. .. Sobrevivemos e continuamos.Vivemos e reaprendemos…..
    ..

Deixe um comentário