Meu amor, como a vida pode ser passageira…

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Patrícia e Elton, um amor que conta de tantos amores. O encontro, a promessa, a cumplicidade. O inesperado, a partida, o grito como tentativa do retorno que não acontece. A doação de órgãos, um jeito de Elton cumprir outros sonhos. O retorno para casa. O vazio, as roupas, a mudança na casa para aguentar o que não se aguenta. Um amor tão imenso que vai morar do lado de dentro, fazendo as pazes com a saudade para que “mozão” possa ficar, para sempre.

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“Nossa história começou em 2011 quando notei aquele músico da igreja, gordinho, tímido, tentando se esconder, me apaixonei à primeira vista.”

Me chamo Patrícia, meu esposo, Elton, faleceu em 23/01/22, aos 36 anos, em decorrência de um AVC. Nossa história começou em 2011 quando notei aquele músico da igreja, gordinho, tímido, tentando se esconder. Me apaixonei à primeira vista e tive que fazer para me perceber. Procurei um jeito de conversar pelo MSN, como uma brincadeira. Ele me convidou para um show e, dessas conversas diárias, saiu o convite para um encontro num sábado, num final de tarde.

Fiz com que esperasse por mim um bom tempo, achou até que eu havia “dado o bolo”. Ele estava sentado, nervoso, me aproximei e ele foi direto dizendo que queria namorar e casar comigo. Fiquei surpresa e, ao mesmo tempo, muito feliz por sua iniciativa certeira, meu coração se encheu de alegria e daquele dia em diante não nos separamos.

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“A morte chegou em 01/2022, em nossa rotina de irmos para o trabalho, meu amor, você estava radiante naquela manhã, de camiseta vermelha.”

Noivamos em junho e no dia 08/09/2012 nos casamos. Foram nove anos de companheirismo e aprendizado, vivemos literalmente nossos votos, onde prometemos “ser fieis, nos amando e respeitando, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até que a morte nos separasse.”

A morte chegou em 01/2022, em nossa rotina de irmos para o trabalho. Meu amor, você estava radiante naquela manhã, de camiseta vermelha, olhei e comentei como você estava lindo e o quanto eu te amava, você sorriu e fomos trabalhar.

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“Te beijei, seus olhos reviraram e o aparelho começou a apitar, naquele momento ocorreu um AVC hemorrágico cerebral.”

Recebi uma ligação que você havia passado mal e estava indo para o hospital. Corri para te encontrar, esperei prestarem os primeiros atendimentos, o coração acelerado. Os amigos que o socorreram estavam com semblantes assustados. Entrei para te ver, vi um olhar amedrontando, tentei te acalmar dizendo que tudo ia ficar bem e que você voltaria para casa, nessa hora você começou a gritar de dor, dizendo que não aguentava. Gritei pela médica, aplicaram uma medicação para amenizar sua dor e, novamente, fizeram outros procedimentos. Eu tive que sair da sala.

Retornei ao pronto atendimento, só estava você, em decorrência da gravidade e da necessidade de atenção. A UTI estava sendo preparada, nesse momento ficamos a sós, te olhei e disse que te amava e que estava tudo bem. Te beijei, seus olhos reviraram e o aparelho começou a apitar, naquele momento ocorreu um AVC hemorrágico cerebral.

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“Senti a maior dor da minha vida parecia que estava arrancando minha carne ainda viva. Sai daquele hospital e, ainda em frente, gritei com a intenção que você pudesse me ouvir e voltasse.”

Após três dias saiu o laudo de morte encefálica, fomos informados que “você era um carro novo sem motorista”, o médico, acompanhado de uma enfermeira, nos perguntou se gostaríamos de fazemos a doação de órgãos. Olhei para os seus pais e pedi que decidissem, pois tiveram você por mais tempo, concordamos, nesse momento, um amigo confirmou que essa era seu desejo. Meu coração, nesse momento houve paz e a certeza que você continuaria através da vida de cinco pessoas e que, de certa forma, poderia cumprir os sonhos de cada um deles.

No dia 23/01/23, eu senti a maior dor da minha vida, parecia que estava arrancando minha carne ainda viva. Sai daquele hospital e, ainda em frente, gritei com a intenção que você pudesse me ouvir e voltasse. Meu mundo ficou cinza e sem sentido encontrei-me perdida em meio a tanta dor.

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“Vendi algumas coisas tuas, reformei a casa, mudei de quarto e de cama, no meu tempo enfrentei todos os medos que vieram.”

Em uma quarta-feira, dia 25/01, sepultei o meu esposo, dias que ficarão em minha memória como dias difíceis, porém, sabia que viriam dias piores. Na quinta, já procurei ajuda profissional com uma psicóloga, sabia que precisaria de ajuda e apoio e cuidados da minha família.

Eu me permiti sentir cada despedida. Foi um processo muito doloroso, mas decidi enfrentar, sangrando por dentro. Me despedi das suas roupas e objetos, eles não faziam mais sentido sem sua presença. Fiquei fora de casa por dois meses, até que senti que precisava ter forças e voltar, por mim e por nossos cachorros. Minha mãe permaneceu comigo dois meses e precisei deixar que se fosse para viver a sua ausência em nossa casa. Vendi algumas coisas tuas, reformei a casa, mudei de quarto e de cama, no meu tempo enfrentei todos os medos que vieram.

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“A saudade era algo muito intenso, hoje, aprendi a lidar com esse elefante que me aperta o peito, acredito que é preciso que me acompanhe de forma amigável, para não adoecer.”

No meu processo do luto vivenciei cada etapa, respeitei a minha dor e o tempo dela, procurei ajuda em grupo de apoio, busquei livros sobre o assunto, me rodeei de autocuidados. Tive minha rede de apoio, fundamental para o meu processo de aceitação de que você morava dentro de mim da forma mais linda, nas minhas memórias.

A saudade era algo muito intenso, hoje, aprendi a lidar com esse elefante que me aperta o peito, acredito que é preciso que me acompanhe de forma amigável, para não adoecer, pois sempre lembrarei de você, uma pessoa cheia de vida, jovem e sonhador, que me fazia rir em meio à raiva, me acalmava, me fazia sentir segura, testava minha paciência todos os dias, espalhava as roupas e instrumentos musicais por cada canto da casa e, estudioso, passava horas estudando para alcançar o sonho de ser da “ gloriosa “ polícia federal como você dizia.

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“Sua partida me mostrou como a vida pode ser passageira e que nunca devemos deixar a pessoa partir sem dizer o quanto a amamos.”

Você, um típico pescador e contador de histórias, meu gordinho, amava comer um porquinho e peixe, sempre cheio de palhaçadas, um bom amigo, músico da igreja e da orquestra como baixista, amava passar o seu conhecimento para músicos mais jovens, incentivava quem conhecia a estudar e mudar de vida.

Elton Aragão Braga foi a pessoa mais incrível que conheci, com seus defeitos e qualidades, eu o amei de todo o meu coração. Sua partida me mostrou como a vida pode ser passageira e que nunca devemos deixar a pessoa partir sem dizer o quanto a amamos, seja em forma de comida, cuidados, palavras ou gestos.

(Autoria: Patrícia Braga Silva)

@patynunesbraga

@lacoselutos_

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