Meu amor, você deixa uma saudade imensa…

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(Autoria: Bianca, amor eterno de Uanderson)

Era pra ser um dia como outro qualquer, essas delicadezas que a gente não percebe, mas espera para uma vida toda, um beijo, um abraço, o trabalho, o sorriso largo vendo um filme, depois, as esperas, os quinze anos da filha, os netos, a vida que deveria seguir com o amor ao lado, a vida que deveria permitir um pai acompanhando a adolescência e a maturidade. Chega uma notícia, um acidente e a vida que estava ali é remexida, chega o tempo do luto, essa saudade imensa, que percorre dias e noites, meses e anos, uma travessia longa até encontrarmos o nosso “para sempre”, onde, delicadamente, transbordamos e arrumamos as flores nos lugares da vida e do coração. Mãe e filha, juntas de todos que o amam, precisam seguir acreditando que ele continuará, o amor não merece e não deve partir nunca, que Uanderson fique no amor que ultrapassa as despedidas…
“Era um dia como outro qualquer na rotina da nossa família, porém, ao acordar, senti que alguma coisa não estava bem, depois tudo fez sentido. Ainda ouço sua voz e seu último conselho, sempre tão sábio, “Calma meu amor, está tudo bem em nossas vidas, tudo está bem, você coloca muitas coisas na sua cabeça, está tudo bem” e lá se foi o nosso último beijo e o nosso último abraço, ah se eu soubesse. Era fim de tarde, quando recebi uma ligação e, então, tudo mudou, tudo se transformou.
Peguei meu carro e, desesperada, fui atrás do meu amor, mas sempre com um pensamento de “Calma, Bianca, vai ficar tudo bem”, ao chegar no quartel percebi uma movimentação diferente, as pessoas me acolhendo, o clima estava diferente, até hoje eu acho que todos sabiam, menos eu. Resolvi vestir minha farda, pois estava de vestido e ele era ciumento, achei que não iria gostaria de me ver no hospital com tal vestido. Tola, mal sabia o que me esperava.
Chegando ao hospital me assustei com a quantidade de pessoas que ali se encontravam, mas a fé não me permitiu enxergar o que estava acontecendo. Levaram-me para uma sala e a única informação que eu tinha é que ele estava no centro cirúrgico.
Alguns minutos depois, se aproximou um médico e perguntou “Quem é a esposa?” Foi, então, que ouvi as palavras mais difíceis e cruéis da minha vida, “senhora, infelizmente ele não resistiu” Só conseguia pensar “como assim? não é possível! Esqueci de mim e só lembrei da nossa filha e dos meus sogros.
Ali, um buraco se abriu na minha frente, era o fim. Pedi insistentemente para vê-lo, não conseguia acreditar que o meu amor não existia mais, que todos os nossos sonhos não iriam mais existir, que nunca mais eu ia ouvir ele me chamar de “bebê”, até que me levaram ao seu encontro, abri o zíper de um saco preto e ali estava o amor mais forte que senti por alguém, o homem que eu desejarei até o ultimo dia da minha vida. A única coisa que fiz foi beijar, beijar cada parte dele e chorar, depois não vi mais nada, me tiraram dali, hoje penso que queria ter ficado mais um minuto, mais um segundo, mas aquilo era só o inicio de muita dor.
Tinha mais um desafio, dentre muitos que ainda iria viver, como falar para uma criança de 8 anos que seu pai morreu, como? Ele havia prometido uma boneca para nossa menina e foi o que pude levar para a conversa mais dolorosa. Levei-a para o quarto da minha mãe e disse, Maria Beatriz você sabe que a profissão da mamãe e do papai é perigosa e as vezes a gente pode se machucar, lembra dos filmes que o papai vê com você , mas como subestimar uma criança de 8 anos, mãe fala logo o que aconteceu com meu pai, ao que respondi “hoje seu pai se machucou e não vai estar mais entre nós, filha, papai morreu como um herói, mas ele mandou entregar sua boneca”. Mãe, eu não quero boneca, eu quero meu pai e saiu pela casa gritando e chorando. Como presenciar isso sem dilacerar a alma? Depois de acalmá-la, perguntei, conforme orientação da psicológica, se ela gostaria de ir ao enterro, respondeu que sim. E lá fomos nós, em trinta anos de vida nunca imaginei viver tal pesadelo. Chegando ao enterro, minha filha disse “pai levanta, olha eu fiz a unha”, senti a morte nesse momento, presenciar a minha menina ser obrigada a viver a isso, nossa, quanta dor. Eram mais de duzentas pessoas, imprensa, depois entendi, ele era comandante de uma Unidade de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro e isso era inadmissível, pois o cargo era de comando e nunca na história um comandante havia morrido de tal forma, mas, para mim, era meu amor, pai da minha filha, homem que dividia sonhos, dores, alegrias, meu companheiro de soninho de domingo, ele era o homem que me apaixonei desde o primeiro beijo, dentro da sala de aula.
Depois de tudo isso parece que um furacão invadiu a minha casa e destruiu tudo que tinha, o amanhecer era enlouquecedor e o entardecer sufocante, pois eu sabia que ele havia sumido e não voltaria mais. Entrar em casa era um mar de tristeza, eu não conseguia olhar para uma fotografia, resolvi abandonar tudo. Era desesperador me ver sozinha, viúva aos 30 anos, com uma filha de oito anos para educar, a depressão tomou conta e não saber o que fazer era uma certeza. A vida nos exige, e precisava ficar bem, me escondia para não deixar a Maria Beatriz me ver sofrendo, mas nem sempre conseguia. Eu sofria duplamente, a minha dor e ao vê-la sofrendo também, como foi difícil, e ainda é, explicar o inexplicável, “mãe onde meu pai está?”, “mãe estou com saudade do meu pai!”, “mãe porque todo mundo tem pai e eu não!” “mãe levanta da cama, você só sabe chorar!”
O dia 11 de setembro de 2014 mudou por completo a vida de toda nossa família, a casa perdeu a cor e o brilho. Uanderson deixa uma saudade imensa em todos, mãe, pai, irmãs, amigos, filha e em mim. Sinto-me só ao olhar todas as noites nossa cama vazia, saudade do seu jeito único, homem inteligente, meu amigo, meu protetor, saudade do sorriso largo que amava ver filmes. A dor se faz presente, mas de forma diferente, também não acho que meu luto acabou, não há um dia que não me lembre do seu jeito, das suas lições sobre a vida, meu homem sonhador. Sabe, é tão ruim e devastador saber que no final de tudo seremos somente uma lembrança, a ideia do fim e a possibilidade desse dia chegar vai muito além do que qualquer entendimento.
Uanderson saiba que você sempre fará falta, nos dias de festa e de dor, nas apresentações de dança de nossa filha, na tão sonhada festa de 15 anos, nos sonhos que não realizamos, quando me tornar avó, a cada ano, mês, dia, minuto e segundo, cada detalhe seu faz falta.
Sobre “esperança”, digo ela sempre precisa existir “enquanto há vida, há esperança” a vida segue, o amor se transforma, a dor se acalma no peito. Meu luto se transformou em serviço, servir ao próximo, trabalho com projetos sociais dentro das comunidades do Rio de Janeiro, onde temos UPP e participo da comissão de análise de vitimização policial, através do ato de servir ao próximo, a travessia da dor do luto se acalmou dentro de mim. Ajudar o próximo é transformador, aí está a verdadeira felicidade, me sentir útil me fez ter esperança por dias melhores, assim meus dias passam mais leves e sempre torcendo para que um dia possa encontrar o meu grande amor lá na eternidade. Com saudade eterna, Bianca.”

 

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