A partida do meu filho me ensinou…

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Virgínia, Cacá, o amor que os unia e as cachoeiras. Um filho que amava cachoeiras e se despede da vida em uma delas. Uma mãe que passa a amar cachoeiras e a lutar pela presença de segurança nelas, junto com uma das lutas mais difíceis, “contra a dor, a inconformidade e a saudade…” Virgínia segue, certa do descontrole da vida, certa que  mães não são “injustiçadas pela vida, mas que mortes acontecem e também com pessoas mais jovens.” O Cacá fica. No amor da Virgínia, nas cachoeiras que ela trouxe para sua vida, recebidas através do amor que o Cacá tinha por elas. O Cacá fica. Na luta da Virgínia para que haja segurança onde não havia.

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“Como caiu ficou, até ser encontrado sem vida quatro dias depois pelos bombeiros e policiais que realizavam a busca, atendendo o pedido de socorro da família que desesperada o procurava…”

“No dia 23 de dezembro de 2016, o jovem professor de Física Carlos Pita, de 31 anos, foi tomar um banho de cachoeira. Escolheu a Cachoeira do Indaiá, por ser a mais próxima de Brasília. Chegou, estacionou o carro, preencheu formulário de entrada, deixando como contato o nome e telefone de seu pai, PAGOU a entrada, entrou e não saiu mais. Escorregou numa trilha, caiu e bateu com a cabeça. Como caiu ficou, até ser encontrado sem vida quatro dias depois pelos bombeiros e policiais que realizavam a busca, atendendo o pedido de socorro da família que desesperada o procurava em Brasília, desconhecendo seu paradeiro, acionando órgãos públicos competentes.

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“Meu filho nunca mais irá à nenhuma outra cachoeira, nunca mais voltará à vida, mas, decidi não deixar que esta prática ilegal se perpetue.”

No entanto, o carro de meu filho ficou estacionado no mesmo local, durante 4 dias, bem na entrada da cachoeira onde cobraram e registraram sua entrada, sem que nenhum funcionário do parque tomasse qualquer providência de identificação e comunicação com o contato registrado na entrada. Descobrimos que ali e em várias outras cachoeiras, o controle é só na entrada, na hora de arrecadar. Passou dali, nada mais se tem… nenhuma sinalização adequada de trilhas, nenhuma segurança, nenhuma vigilância, nenhum controle de saída, nada! Apenas o mercantilismo sem regras nem pudor. Meu filho nunca mais irá à nenhuma outra cachoeira, nunca mais voltará à vida, mas, decidi não deixar que esta prática ilegal se perpetue.

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“A grande lição que a partida do meu filho me ensinou foi a de que na vida não temos o controle de nada. Que não fomos injustiçadas pela vida, mas que mortes acontecem e também com pessoas mais jovens.”

Passei a partir dai minha luta por segurança, controle e respeito em todos os parques e locais de turismo de aventura que cobram entrada. Quero que todas as pessoas possam desfrutar, com segurança, de seus hábitos saudáveis, paixões, e hobbies. Quero que o funcionamento desses ditos “parques” seja regulado e siga os mesmos padrões de segurança e controle praticados nos Parques Oficiais, que seguem regras devidamente estabelecidas pelos órgãos competentes.

Não quero que outras famílias passem pelo que passamos. Não queremos mais escutar outras tantas noticias assim… Junto à minha luta por cachoeiras seguras comecei minha luta mais difícil, contra a dor, a inconformidade e a saudade.

Li muitos livros. Primeiros livros espíritas, depois livros sobre luto, que ficaram sendo durante muito tempo os meus preferidos. Encontrei através de redes sociais outras mães que também perderam filhos. Esta troca com estas mulheres me ajudaram muito. Nossa dor quando compartilhada dilui…conheci projetos lindos que, como o meu, também nasceram da dor. Me juntei a estas mães formando grupos, apoiando umas às outras em nossas lutas. Plantamos ipês, reunimos e principalmente, nos fortalecemos.

257986697_10159408044104185_6856260549093516483_n“Temos que ter a humildade de aceitar os desígnios de Deus, do destino. Aprendi também que a vida segue bela como sempre foi, não perdi minha essência alegre. E farei de tudo o que for para seguir feliz, apesar de…”

Com o tempo as dores vão se acomodando dentro de nós. Aprendemos a manejá-la, entendê-las e saber que estarão sempre ali e que por vezes poderão doer novamente…O luto não é linear. A grande lição que a partida do meu filho me ensinou foi a de que na vida não temos o controle de nada. Que não fomos injustiçadas pela vida, mas que mortes acontecem e também com pessoas mais jovens. Se acontece com o outro, por que não com a gente???

Temos que ter a humildade de aceitar os desígnios de Deus, do destino. Aprendi também que a vida segue bela como sempre foi, não perdi minha essência alegre. E farei de tudo o que for para seguir feliz, apesar de… Cacá, meu filho amado, meu professor, mesmo depois de sua partida muito me ensinou.”

Autoria: Virgínia Miranda.
Mãe do Carlos Pita, Cacá

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