“Meus pais vivem dentro de mim, viraram saudade…”

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(Autora: Lívia Fernandes) A Lívia fala dos dezembros, das despedidas que aconteceram em sua vida nesse mês tão festivo, fala de pai e mãe, fala de outros lutos também, o adeus à possibilidade de ter outros filhos, após seu querido Matheus. Um telefonema e “seu melhor amigo e fiel escudeiro” parte, a dor fica misturada com a perda gestacional, como também ficou misturada a alegria pelo nascimento do filho com a notícia que não poderia ter outros filhos e a luta pela própria vida. Chega outro dezembro, Lívia se despede da mãe em 26 dias. Pausarmos para ler sua história é compreendermos os caminhos para que o “amor passe a viver dentro de nós, sem chances de partir enquanto residirem em nosso para sempre…”

“A primeira vez que a sorrateira morte chegou tão perto demim foi em dezembro de 2013. Estávamos planejando o natal na minha casa, de repente, uma ligação: -Lívia, seu pai morreu, “o que? como assim? “Só quem já passou por isso sabe a cacofonia perturbadora que essa notícia causa. Meu pai era meu melhor amigo, meu fiel escudeiro, daqueles que a gente passa a noite conversando. Ele sabia dos meus medos, e eu mais ainda dos dele, eu tinha uma admiração profunda por ele e por sua história, era filho único e órfão, cresceu sem pai e mãe, que faleceram quando ele era muito novinho, foi criado pela avó materna que, também, faleceu logo após seu casamento com minha mãe. Construiu uma vida linda e uma família mais linda ainda e, sim, naquele dia, eu perdia meu pai, meu amigo, meu herói.

A partir desse dia, comecei a conhecer o real significado da palavra “luto”. Nesse período, tive uma gravidez e um aborto espontâneo, até hoje não sei se vivi o luto dessa perda, pois ela se misturou com a perda do meu pai e tudo ainda se confunde pra mim. Um ano e alguns dias após o falecimento do meu pai, descobri minha segunda gravidez, apesar do medo de outra perda, estava radiante e feliz, vivi cada momento. Entendo que nesse período já tinha elaborado o luto pela perda de meu pai, ele passou a ser uma lembrança muito feliz na minha vida.

Dia 01/09/15 nasceu meu Matheus, meu melhor presente de Deus, cinco horas após seu nascimento, comecei a ter uma forte hemorragia, era o início da vivência de mais um período de luto. Não conseguiram controlar a hemorragia, tiveram que retirar o meu útero e fiquei entre a vida e a morte, lutando contra parada cardíaca, choque hipovolêmico, falência dos órgãos, coma por 4 dias. Eu venci a morte, mas travei uma batalha pela elaboração da perda do útero. Minha mãe foi peça importante nesse momento, ali entendi o sentimento de mãe, ali entendi a importância de ter uma mãe, ali entendi a realização em ser mãe. Foram lindos esses três anos, sendo mãe e tendo minha mãe. Foi lindo entender a dimensão do amor da minha mãe e ser grata a ela, em vida.

Por ironia do destino, próximo ao natal (de novo), ano de 2018, recebi a notícia mais perturbadora de toda a minha vida. Minha mãe estava com câncer, com o pior prognóstico possível. Travei uma luta infinita contra essa doença, até porque sabia que essa luta não seria nada em comparação a luta que seria para eu aprender a viver sem ela. Em vinte e seis dias ela faleceu, ela se foi dentro do meu abraço, ouvindo o quanto eu a amava, faleceu em 14/12/2018 e, pelo menos nesse relato, me resumo a falar somente isso sobre a ida dela, porque ainda estou nesse luto e, enquanto a gente está dentro dele, é difícil resumir esse sentimento.

Apesar de tudo, agradeço aos meus lutos por terem me ensinado o valor do hoje, por terem me dado a compreensão que estar viva é o maior presente. Meus pais vivem dentro de mim, viraram saudade e, pelo menos como saudade, eles não poderão mais partir.”

@liviafernandesgg

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