Minha filha: no luto, o absurdo é o comum de quem ama…

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O que cabe na travessia do luto de uma mãe? É tanto amor que cabe o absurdo e um pouco mais, “esperando que em uma reviravolta louca ela se levantasse dizendo que era uma brincadeira de mau gosto.” Giuliana não se levanta, mas tem uma mãe que segue, Lani, certa, nas aprendizagens da dor, que viveria tudo novamente. Certa que o amor é mais forte que a morte. No luto cabe o que sentimos, no luto cabe a dor e o amor, de forma singular…

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“A todo momento me regenero da ausência e nem me preocupo se hei de conseguir, pois como tudo nesta existência, há de passar.”

1217 dias e ainda a vida se acomoda que a gente nem imagina…

Aprender de maneiras duras, que a vida nos impõe com as perdas, as falhas, as obrigações enfim escolhas que fizemos na espiritualidade para conseguirmos evoluir. Devo porém enfatizar, que sou grata a muitas coisas, aos dons que Deus me deu, aos anjos que Ele colocou na minha vida, aos talentos que consegui aprimorar, aos amigos que consegui conquistar e por último a fé, que por vezes falha, mas ainda sim continuo a insistir e acreditar que tudo tem uma razão de ser.

A todo momento me regenero da ausência e nem me preocupo se hei de conseguir, pois como tudo nesta existência, há de passar.

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“(…) esperando que em uma reviravolta louca ela se levantasse dizendo que era uma brincadeira de mau gosto. Sim, é absurdo, mas eu aprendi que, no luto, o absurdo é o comum de quem ama.”

Mas eu precisei aprender com o luto. E eu, como nunca gostei de velórios e cerimônias tétricas, parecia estar assistindo um filme.

No dia que minha filha se foi, chovia muito, e foi por causa da chuva que a vida inteira me encantou com sua poética sombria, que ela sofreu o acidente. Como num cliché de filme, serenava. Porém, naquele dia, eu ainda não entendia como seria o tempo sem ela.

Sim, eu sentia serenar por dentro, bem no meu coração. As pessoas iam saindo lentamente, em silêncio, enquanto eu me deixava ficar, esperando que em uma reviravolta louca ela se levantasse dizendo que era uma brincadeira de mau gosto. Sim, é absurdo, mas eu aprendi que, no luto, o absurdo é o comum de quem ama.

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“Nem sei dizer se aquilo era sofrimento, eu acho até que aquilo ali nem nome tem. É um carrossel louco de sentimentos tão fortes que deixam a alma e o corpo abatidos de cansaço.”

Depois que todos se foram, ela veio juntamente com o silêncio e o frio: a dor pungente. Eu aceitei, porque sei que assim que deve ser, mas a dor é física. Ela rasga de dentro para fora, ela fere pelas entranhas, como se ela sempre tivesse estado ali e estivesse apenas esperando o momento certo para sair rasgando tudo, como um Alien cuidadosamente alojado.

Nada que eu vivi até o momento daquela dor poderia se comparar àquele sofrimento, nada. Nem sei dizer se aquilo era sofrimento, eu acho até que aquilo ali nem nome tem. É um carrossel louco de sentimentos tão fortes que deixam a alma e o corpo abatidos de cansaço. Quando após horas ou dias sem dormir direito, o corpo finalmente repousa numa cama, era como se eu tivesse travado uma luta numa arena romana.

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“A verdade, é que a ausência dói de tantas maneiras que eu não poderia jamais imaginar e que talvez eu nunca consiga descrever.”

Dormimos sem querer dormir. Simplesmente, o corpo se desliga, porque sabe que se não fizer isso não suportará. Eu aprendi que o nosso corpo nos comanda nestes momentos. Vivendo esta perda, eu precisei aprender algumas coisas. Não porque eu quisesse, mas porque foi necessário, foi parte do processo natural que eu não pude escolher.

De tudo que restou em mim, a coisa que mais se sobressaiu foi a dor momentânea e a certeza que ainda ela vive num mundo paralelo. A verdade, é que a ausência dói de tantas maneiras que eu não poderia jamais imaginar e que talvez eu nunca consiga descrever.

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“(…) insistirão em julgar nosso sofrimento e tentar nos roubar o direito de viver o luto, à nossa maneira.”

As pessoas as vezes me perguntam: como você conseguiu vencer? A resposta é simples: O luto doeu psicologicamente, fisicamente e espiritualmente. Eu me senti vazia e solitária, em todos estes aspectos. Então, eu aprendi que às vezes a gente deseja morrer, tão involuntariamente, que chega a ser inocente. É apenas o desespero para aliviar a dor gritando mais alto dentro de nós.

E eu notei que vai ter muita gente solidária ao nosso sofrimento mas, também, existe uma quantidade surpreendente de pessoas de alma dura, que insistirão em julgar nosso sofrimento e tentar nos roubar o direito de viver o luto, à nossa maneira. Sim, o luto precisa ser vivido. Afinal, ele é também uma etapa da vida: nascemos, vivemos e morremos. Neste espaço do “vivemos”, enterramos quem amamos. Estar de luto significa que você está vivo.

183710832_10224181330898393_3564932741533252430_n “A realidade é que tudo não é mais que uma busca incessante por uma forma de arrancar do peito a dor sufocante da ausência de quem amamos. “

Chega um tempo em que lutamos insistentemente por melhorar, queremos sair daquele poço fundo e parar de sofrer, algo dentro de nós teima em reagir. E, neste momento, fazemos de tudo para emergir. É a hora que os mais aventureiros e os mais fracos fazem besteira. A realidade é que tudo não é mais que uma busca incessante por uma forma de arrancar do peito a dor sufocante da ausência de quem amamos. Na ânsia de esquecer muitos de nós cometem as piores coisas de suas vidas. É preciso ter calma nestes momentos. É preciso ter constância. É imperativo buscar a paz.

Eu aprendi também que nem sempre os médicos estão certos e que para a psiquiatria o luto tem tempo. Se enterrei alguém que amei por 28 anos, como eu poderia simplesmente esquecê-la em meses?

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“(…) é preciso força para continuar e é preciso audácia para dar valor à sua própria vida e às suas conquistas, quando a pessoa com quem você sonhou em dividir tanta coisa, não está mais ali. 

Aprendi também que as realizações pessoais a serem comemoradas se tornam alegrias com uma pontinha de tristeza e é preciso coragem para enfrentar isso. É preciso coragem para comemorar cada coisa que você desejou festejar ao lado daquela pessoa que não está mais ali, é preciso força para continuar e é preciso audácia para dar valor à sua própria vida e às suas conquistas, quando a pessoa com quem você sonhou em dividir tanta coisa, não está mais ali. A vida após um luto consiste em um exercício diário.

Dia após dia, as nossas reações se modificam, nossos sentimentos se acalmam. O desejo de convulsionar em lágrimas dá lugar a uma saudade comprida e cheia de amor, recheada de lembranças que chegam de repente, no meio da tarde e nos arrancam um sorriso meio bobo. A passagem daquela pessoa em nossa vida passa a fazer todo o sentido. É trivial, mas era como tinha de ser. Se não fosse assim, não seria minha história ou a sua ou a dela.

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“Mas a maior de todas as coisas que eu aprendi é que se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu aceitaria enfrentar essa dor, apenas pelo prazer de todo o antes que vivi ao lado dela.”

Aos poucos entendemos que a vida não para em prol do nosso sofrimento, o mundo não deixa de girar para sofrermos, tudo permanece como está e segue o fluxo normal. Então, gradativamente conseguimos nos adaptar. Voltamos a viver. Eu aprendi, aliás eu sempre soube, que existe vida após o luto. E uma vida mais consciente de que o tempo é curto, que o verdadeiro amor é raro, que Deus existe, que amar exige compaixão, que as pessoas mais importantes de nossas vidas sempre estiveram ao nosso lado, que o destino nos leva a cumprir nossa jornada e que vale à pena esperar.

Mas a maior de todas as coisas que eu aprendi é que se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu aceitaria enfrentar essa dor, apenas pelo prazer de todo o antes que vivi ao lado dela. Se ter a história que eu tive, exigia carregar esta dor, eu a carregaria mil vezes sem a menor dúvida.

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“Apesar de tudo, sempre vale a pena.”

Eu aprendi a jamais me arrepender de amar. E aí vem a minha fé, me fazendo compreender o que na verdade eu já sabia, que tudo tem uma razão de ser. Porque a vida inteira eu escrevi melhor quando estava deprimida ou triste, porque tudo que me move está na espiritualidade e nada deste mundo faz sentido se não for por amor e ainda mais se esse amor for verdadeiro e infinito.

A resposta está bem na sua frente e a sua visão nublada não lhe deixa visualizar. Por anos a fio fiz diálogos uníssonos com amigos imaginários, escrevi textos que eram ditados, e tive sensações tão reais que nem eu mesma podia acreditar. Tudo isso, porque eu estava sendo preparada, para que quando eu estivesse neste estágio pudesse compartilhar com outras pessoas a seguinte lição que me valeu por todos os aprendizados:

Apesar de tudo, sempre vale a pena.

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“(…) no tabuleiro de Deus sou a peça chave que ainda está no jogo, não me importa quando ele vai acabar mas estou pronta para o que Ele quiser de mim em nome do amor único e incondicional.”

Hoje vivo num estagio melhor, faço questão de tê-la presente mais do que nunca em todas as minhas ações, no meu trabalho, no meu dia a dia, nas coisas simples da vida. Sou movida pelo “deixar ficar”, pois tudo tem um proposito, não luto contra a maré porque não sou capaz de nadar com tanta força, mas de uma coisa tenho certeza mais do que nunca: no tabuleiro de Deus sou a peça chave que ainda está no jogo, não me importa quando ele vai acabar mas estou pronta para o que Ele quiser de mim em nome do amor único e incondicional.

Te amo filha….eternamente….

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