“Nem a morte nos separa…”

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(Autoria: Ricardo, Gonzalez, pai do Rafa e da Maria Luísa)
Um pai, um filho e muitas afinidades, a notícia que chega, o recorte nas páginas que seriam escritas, o medo e a dor de um pai que entram na fila de espera, é hora de cuidar do filho. A esperança chega através de propósitos – as horas dispensadas num trabalho que seja prazeroso, como se a vida não pudesse mais acontecer de qualquer jeito, um livro sobre esse amor, contemplando o que partiu e o que ficou, um outro filho, “Não para substituir Rafa, isso seria impossível e injusto com essa nova pessoa. Mas porque tenho vocação para ser pai e porque não vejo sentido na vida sem esse tipo de continuidade”. O Rafa fica, quando esse pai escolhe a continuidade da própria vida, o Rafa fica,  na maneira como lidou com sua própria despedida, um jeito de dizer sobre a imensidão do amor recebido e essa profundidade da compreensão das chegadas e partidas, o Rafa fica, após a amputação, na prótese oferecida através de tudo o que ele deixa para esses pais, a prótese que protege a queda e possibilita o sorriso, a fé no dia seguinte, o nascimento da irmã, o Rafa fica, na memória diária, “Não há um dia em que não me lembre de Rafa”, fica, porque nem a morte os separa…

“Sou Ricardo Gonzalez, 56 anos, jornalista. Meu filho Rafael nasceu em 1989, no Rio de Janeiro, fruto de meu primeiro casamento, com Monica. Sempre tivemos um relacionamento muito especial, ser pai é a minha vocação nesta vida. Varias coisas nos aproximavam, entre elas o fato de eu ter sido pai pela primeira vez muito cedo, aos 24 anos, a paixão pela música, a paixão pelo futebol, as posições políticas, o bom humor, o jeito leve de viver. Fomos juntos à Disney, a Búzios, Natal, Maceió, Nova Iorque, vimos juntos shows dos Paralamas, de Roger Waters, do Police. E a arquibancada do Maracanã era nossa segunda casa, o divã onde filosofávamos sobre a vida e discutíamos a relação. Em 2009, depois de Rafa ter feito a viagem de sua vida – foi com meu pai, a namorada (Susana) e a família desta a Roma, Atenas, Paris, Barcelona, Madrid depois conheceu suas raízes na Galícia (meus pais são espanhóis, minha mãe das Astúrias) – Rafael estava numa roda-viva. Duas faculdades (História e Jornalismo), estágio no Jornal do Brasil, prova para estágio na TV Globo. No fim do ano, teve febre uma vez ou outra e surgiram pequenas bolas ao longo de seu tronco. Médicos falaram em mononucleose. Outros em virose. No dia 10 de janeiro de 2010 celebramos, eu, Rafa e meu pai, seu aniversário de 21 anos numa churrascaria. Ele começaria a estagiar na Globonews em 1 de fevereiro. Mas no dia 20 de janeiro, uma daquela bolas passou a pressionar a coluna. Rafa não conseguia andar e foi internado. No dia seguinte, eu e Mônica (que não estávamos mais casados desde 1997), fomos informados que Rafa teria de ser operado com urgência para não perder o movimento das pernas, e depois um oncologista assumiria o Linfoma Não-Hodkin que o atacava.
A gente fica sem chão, a mãe se desespera, mas eu, um otimista de nascença, lembrei que para chorar ou lamentar teríamos toda a vida. Ali precisávamos ser o porto seguro do Rafa, e manter o foco para lutar com uma ameaça do tamanho de um câncer.
A cirurgia de coluna foi exitosa, Rafa fez fisioterapia por três meses e voltou a andar normalmente. Em paralelo, passou a se tratar no INCA, até então uma referência nesse tipo de tratamento. Respondeu bem na primeira fase. Para alguns, deu esperança. Para mim, certeza de que ele iria se curar. Mas a segunda etapa não foi boa. A doença não regredia mais. Em agosto o INCA informou que interromperia o tratamento. Rafa demonstrava um serenidade inacreditável para sua idade. Estava se preparando para a partida. Ainda fomos a São Paulo para uma última tentativa com um mega especialista. Rafa me disse que não acreditava mais em cura, mas sabia que eu não ia perder sem lutar. Ao mesmo tempo, tentava me tranquilizar dizendo que a maneira como eu e a mãe o criáramos havia preparado-o para tudo na vida, até para a morte.
Essa última etapa em Sampa foi duríssima. Rafa sofreu muito. A doença foi zerada, mas era preciso esperar um mês sem que ela voltasse para, então, fazer um transplante de medula. Mas ela voltou. E Rafa partiu serenamente no dia 19 de novembro.
Ele, a mãe, minha atual esposa (Luciana), meu pai, todos estavam cientes de que não havia jeito. Eu era o único que acreditava num milagre até lhe tomar o pulso no hospital e não sentir mais nada.
No instante seguinte, o impulso foi me atirar pelo vão da escada. Não para fugir, não por medo, não por covardia. Mas pela ilusão fortíssima de proteger Rafael naquela passagem, de saber se ele estava bem. Mas consegui racionalizar: e se não houver nada depois da vida? Aí meu pai, além de perder o neto, perderia o filho. Quando a poeira assentou, primeiro eu consegui perceber que qualquer que fosse o destino de Rafa, não seria pior do que o que ele estava passando. Tem-se então dois caminhos: ou se entregar e esperar o dia da morte, ou seguir em frente.
Por tudo o que pedi a ele naqueles 11 meses, por toda a valentia e dignidade com que ele encarou a doença, decidi honrar nossa relação e seguir em frente. Para isso, é preciso estabelecer objetivos. Não pode ser conhecer Marte, porque não conseguiremos e à dor somar-se-ia a frustração. Não pode ser passar uma semana no Nordeste, porque ela passa rápido e a dor não iria embora. Estabeleci então três objetivos:
- profissional, porque não podia parar de trabalhar. Não queria mais sofrer e me perguntei o que faria no jornalismo de graça, por prazer, se não dependesse de salário. E respondi: comentar futebol.
- Escrever um livro sobre minha relação com Rafa, tendo como fio condutor tudo o que vivemos em 2010, mas mostrando aos leitores quão especial foi aquele meu menino.
- e o terceiro: ter outro filho. Não para substituir Rafa, isso seria impossível e injusto com essa nova pessoa. Mas porque tenho vocação para ser pai e porque não vejo sentido na vida sem esse tipo de continuidade.
Assim, em 2014, lancei “Nem a morte nos separa” (Editora Mauad X. De 2012 a 2016 fiz pilotos e eventos pra valer comentando jogos no SporTV, até que no ano seguinte passei a integrar o elenco de comentaristas da emissora.
E também em 2014 fui abençoado com a chegada da Maria Luísa, irmã do Rafa, fruto do meu amor por Luciana.
Malu ajudou a que não houvesse mais nenhuma opção de desistir, ou sucumbir à saudade. A sabedoria (e a luz do Rafa em outro plano, estou seguro) me permite equilibrar bem o trabalho prazeroso com a dedicação plena à formação e ao amor de minha linda filha.

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Não há um dia em que não me lembre de Rafa. E não haverá até que o reencontre. Sei que ele não era deste mundo, teve uma passagem rápida e foi cumprir outra missão. O tempo acalma e coloca a saudade em seu lugar correto.
Perder um filho, grosseiramente, é como perder um braço. Primeiro é uma dor física que parece insuportável. Depois é um trauma, não sabemos como será a vida a partir daquela perda. Mais à frente, vamos aprendendo a fazer o que fazíamos. Depois podemos até colocar uma prótese e viver dignamente. Mas o que perdemos nunca voltará, nem o braço, muito menos o filho.
Mas, se no início ficamos até incomodados quando nos flagramos sorrindo, hoje é bem claro que é possível voltar a ser feliz. Até porque tenho certeza de que é o que Rafael exigiria que eu fosse.”
Instagram: @ricardogonzalez8696

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