O luto de uma ausência sem respostas…

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A imagem de um pai na janela cria voz diante do relato de Marcelina. Uma espera que teve início em 1988 e foi mantida até a morte desses pais. Como deixar de aguardar respostas sobre o desaparecimento de um filho? Como não ser afetado por lugares sagrados que ficam abertos aguardando respostas dia e noite, noite e dia? Marcelina confirma o peso dessa dor no amor que estava ali. A mãe que “amofina lentamente”, o pai, incansável nesse amor, anotando cada passo e cada telefonema nessa procura. Marcelina, não esquecendo, se indignando com a falta de resposta, mantendo esse irmão através da reativação da memória. A despedida é esse lugar singular, “em que a vida segue, independente do tempo da nossa dor.” 

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“Silêncio. Foi o que ouvimos, muitas vezes, cortado por boatos, telefonemas anônimos, mas uma resposta concreta: nunca chegou. Já se passaram 33 anos desde que meu irmão saiu de casa, em um domingo de manhã, sob a promessa de voltar para almoçar com minha mãe.”

“Em 10 de junho de 1988, meu pai, Luiz Gonzaga de Almeida, redigiu e enviou ao Governador do Estado de Minas Gerais, em exercício naquela ocasião, um ofício, no qual rogava: “Sr. Governador, estou com um filho de 33 anos; solteiro, Detetive II da Polícia Civil de Minas Gerais, lotado no 16º Distrito (Pampulha). Universitário, cursando o 3º período do curso de Direito da UFMG, honesto, cumpridor de seus deveres com lisura, desaparecido há quase quatro meses, desde o dia 28 de fevereiro deste. Segundo o Exmo. Sr. Secretário de Segurança Pública, Dr. Sidney Safe, em sua folha de serviços é exemplar, não constando nada que venha desabonar sua conduta. Informo a V. Exa. que meu filho, na época do seu desaparecimento gozava de perfeita saúde mental e física e não tinha motivo algum para desaparecer assim tão misteriosamente.” A resposta a esta sentida e sincera súplica não foi respondida. Muitos outros ofícios foram enviados aos órgãos institucionais competentes, cartazes foram distribuídos, entrevistas e acompanhamento dos jornais impressos que circulavam na capital mineira. Silêncio. Foi o que ouvimos, muitas vezes, cortado por boatos, telefonemas anônimos, mas uma resposta concreta: nunca chegou. Já se passaram 33 anos desde que meu irmão saiu de casa, em um domingo de manhã, sob a promessa de voltar para almoçar com minha mãe. Nunca mais voltou. Meus pais partiram deste plano terrestre há alguns anos: mamãe, em 2012 e papai em 2015. Nunca desistiram de procurar por meu irmão, sempre buscaram uma resposta para este luto construído na ausência inexplicável do filho amado. É esta história que eu quero contar.

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“Antônio, dos meus irmãos e irmãs, era sofisticado, inteligente, calado e, seu silêncio era quebrado, para nos orientar a mim e meus irmãos e irmãs mais novos e novas, para a importância dos estudos.”

O meu irmão, Antônio, era 11 anos mais velho do que eu. Somos uma família grande: 04 homens e 06 mulheres, podíamos ser mais numerosos, porém, minha mãe teve algumas perdas, ainda grávida e um bebezinho, morreu antes de completar 01 aninho. Antônio, dos meus irmãos e irmãs, era sofisticado, inteligente, calado e, seu silêncio era quebrado, para nos orientar a mim e meus irmãos e irmãs mais novos e novas, para a importância dos estudos. Gostava de música, torcia para o América Futebol Clube, jogava bola, adorava Fórmula 1 e também apreciava o Boxe e xadrez. Era exigente e crítico e foi responsável, muito mais que meu pai, como referência masculina, no tocante à autoridade e, principalmente naquilo que se refere à enxergar a escola, a leitura, a educação como a única alternativa para o progresso humano, social e cultural. Ele foi um dos meus maiores incentivadores a estudar e, por causa dele, aos 17 anos já era aluna do curso de História na Universidade Federal de Minas Gerais, tendo sido aprovada no primeiro vestibular.

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“Um dia, saiu de casa, era um domingo de manhã, saiu dizendo para minha mãe que voltaria e nunca mais voltou. Os primeiros dias e finalmente, o primeiro ano do seu súbito desaparecimento, foram marcados pela busca incansável do meu pai por notícias e de ajuda.

Embora fosse um incentivador para que suas irmãs e irmãos levasse os estudos a sério e alcançasse uma vaga em uma universidade pública, ele próprio começou o curso de Direito tardiamente, somente no ano de 1986, foi aprovado e iniciou os estudos na Universidade Federal de Minas Gerais. Mas isso não quer dizer que não tenha estudado, na adolescência foi aluno do SENAI e, posteriormente, fez o curso de Mecânica no CEFET/MG. Ele dizia que precisava se qualificar, para arrumar emprego e ajudar, financeiramente, em casa, principalmente a minha mãe. Ele era muito cuidadoso com ela. Sempre a defendia e protegia e procurava nos ensinar a ter paciência quando mamãe se mostrava impaciente conosco.

Assim, depois que ele passou no concurso público e entrou para o quadro de detetives da Polícia Civil de Minas Gerais, analisou o cenário e decidiu que deveria cursar Direito, pois tinha projetos pessoais e profissionais e a qualificação era uma estratégia importante.
E foi neste contexto que, um dia, saiu de casa, era um domingo de manhã, saiu dizendo para minha mãe que voltaria e nunca mais voltou. Os primeiros dias e finalmente, o primeiro ano do seu súbito desaparecimento, foram marcados pela busca incansável do meu pai por notícias e de ajuda. Ele se valeu de tudo que pode e que esteve a seu alcance, percorrendo hospitais, IML, delegacias, Corregedoria da Polícia, enviando ofícios para as diversas autoridades possíveis. Ou seja, o primeiro ano foi marcado pelo desapontamento e tristeza que só aumentava na medida em que o tempo passava e meu irmão não voltava e nem eram trazidas respostas, oficiais, plausíveis, sobre o paradeiro do Antônio. O meu pai, inclusive, resolveu montar aquilo que ele chamou de dossiê e no dia que completou 58 dias do desaparecimento do meu irmão, ele escreveu um longo relato, no qual descrevia todos os passos que havia tomado, desde então, no intuito de encontrar o filho. Falava de todas as ações realizadas, inclusive, a busca de respostas em outras religiões, buscando apoio, orientação e, quem sabe, um milagre de uma indicação divina do paradeiro do meu irmão. Neste relato, contudo, o final de seu texto revela o esgotamento físico e mental, a dificuldade em convencer a mamãe de que ele estava fazendo tudo que podia para solucionar o drama que, a vida, de modo abrupto havia mergulhado a todos nós.

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“A passagem do tempo, ou seja, o correr das horas, dos dias, dos meses, dos anos, esta vivência do luto foi se transmutando. Minha mãe adoeceu. Ela gostava de viver, mas a ausência de resposta, fez com que se amofinasse com o tempo.”

Ao reler este relato sensível do meu pai, eu percebo que ele, começava ali, a viver, ainda que de modo não intencional, já vivia o luto pela perda cristalizada no desaparecimento do meu irmão. Meu pai durante muito tempo bateu pé na ideia de que meu irmão estava vivo e que iria voltar. Minha mãe, usando, sua sensibilidade materna, desde muito cedo, já começava a falar da possibilidade do meu irmão ter sido morto e já chorava e falava que sonhava com ele e só queria saber onde ele estava, onde estava o corpo e, certa vez, durante uma entrevista, rogava às pessoas que o haviam assassinado que devolvesse, ao menos, os documentos que estavam com ele, pois desejava guardar de lembrança.

Ou seja, a vivência do luto, diante desta situação inusitada, inesperada, abrupta, foi sendo experienciada de modo difuso e confuso por toda a família, e em particular, pelos meus pais. Posso dizer que o início de tudo foi marcado pelo horror, a tristeza e a incompreensão acerca do que poderia ter acontecido com o meu irmão. A passagem do tempo, ou seja, o correr das horas, dos dias, dos meses, dos anos, esta vivência do luto foi se transmutando. Minha mãe adoeceu. Ela gostava de viver, mas a ausência de resposta, fez com que se amofinasse com o tempo. O meu pai, aos poucos, diminuiu a busca frenética, mas sempre estava atento a qualquer movimento que pudesse sugerir uma possibilidade de resposta. Ele sempre à frente de todas as questões que envolviam as responsabilidades legais do meu irmão. Passou para ele a curatela dos bens deixados pelo Antônio, pois meu irmão não era um defunto, não havia registro do falecimento, toda a documentação se refere ao Antônio como aquele se encontra em um “lugar incerto e não sabido”. Como lidar com o luto em relação a uma pessoa que se encontra em um não lugar?

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“Cada um de nós, do meu núcleo familiar, vive esta dor de seu jeito. Uns se recusam a falar, eu, a meu turno, vivo tudo isso com meu processo de reativação da memória. Falo para minha filha e filhos sobre quem foi o tio deles.”

Assim, decorridos esses 33 anos do desaparecimento do meu irmão posso garantir que, se o processo de luto é lento e individual, ainda que, cada um de nós, irmãs, irmãos, meu pai, minha mãe, quando ainda estavam por aqui, neste plano espiritual, tenhamos tentado seguir nossas vidas, a tristeza perdura, como uma bruma, pois todos os dias nos confrontamos com os limites diante dos quais nada podemos fazer. É uma situação irremediável. O silêncio das autoridades, o silêncio da ausência, o silêncio de um adeus que não se configurou em um velório e sepultamento, ainda persiste.

Cada um de nós, do meu núcleo familiar, vive esta dor de seu jeito. Uns se recusam a falar, eu, a meu turno, vivo tudo isso com meu processo de reativação da memória. Falo para minha filha e filhos sobre quem foi o tio deles. Falo sempre dele. Conto as histórias. Depois que meu pai faleceu, eu fiz questão de guardar tudo que ele escreveu e colecionou: os documentos, as fotos, os recortes de jornais e sempre vasculho estas lembranças e reatualizo a trajetória do meu irmão. Minha forma de viver este luto abrupto é não esquecendo, me indignando e buscando uma resposta. O que aconteceu com o Antônio? Que lugar incerto e não sabido é este? Eu sei, contudo, que a vida segue, independente do tempo da nossa dor.”

Marcelina das Graças de Almeida, Profa. Dra da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais, mas sobretudo filha da D. Ilka, do Sr. Luiz e irmã do Antônio e de mais 8. Atua como Editora da Revista M, um periódico acadêmico que compartilha, digitalmente, estudos acerca dos temas ligados à morte, o morrer e os mortos.

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