Sempre tem o dia seguinte, com uma noite no meio…

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(Autora: Alessandra Begalli Zamora)

A ansiedade diante de um passeio, um aceno na janela, o coração apertado, um engasgo e “a vida muda para sempre”, nos dias que seguem, o choque, o amor e o desejo que outras mães não passem pela mesma situação, a dor que cede ao amor, o amor que vira Lei, LEI LUCAS, e traz segurança para tantas crianças através da partida precoce de Lucas, através da dor e do amor de uma mãe e de uma família que precisavam de caminhos para essa ausência, pais, tia, avós e bisavó, encontrando um sol entre as nuvens. Haverá dias difíceis? Sim, mas a bisavó de Lucas deve ser ouvida, “sempre tem o dia seguinte, com uma noite no meio”, lugares de salvação que o tempo vai ensinando…

“Era 27 de setembro de 2017. Acordei meu filho Lucas, de 10 anos, mais cedo. Era o tão esperado dia de passeio com a escola! Todos os anos o colégio organizava, juntamente com uma agência de turismo especializada em passeios pedagógicos. Lucas, que estudava há 4 anos nesse colégio, o mesmo em que frequentei durante toda a minha vida escolar, não se aguentava de tanta ansiedade pela folia que o esperava durante todo o dia. Entreguei-o naquela amanhã, no ônibus de excursão e foi com o coração apertado que o vi abanando a mãozinha pra mim, através da janela.

O passeio transcorreu normalmente com muita alegria e algazarra das crianças até o meio da tarde, hora do lanche. Foi quando minha vida mudou para sempre. Não consigo relatar com detalhes o ocorrido, mesmo porque não estava presente e os relatos são desencontrados. Mas o que sei é que no refeitório da fazenda, foi servido cachorro quente. Lucas engasgou com um pedaço de salsicha. Entre todos os adultos que estavam no passeio, funcionários do colégio, da agência de turismo e da fazenda, não havia ninguém preparado para desengasgar meu filho. Ele não recebeu os primeiros socorros de forma rápida e adequada (manobra de Heimlich ou de desengasgo + RCP) e acabou falecendo em decorrência de asfixia por engasgamento.

Após o choque inicial que tomou conta de mim por ter perdido meu filho único, meu companheiro de jornada, minha alma gêmea, o amor da minha vida, motivada por minha irmã, meu marido, meus pais e minha avó mas, principalmente, pelo imenso amor que tenho por Lucas, passei a refletir sobre o quanto nossas crianças estão realmente seguras nos ambientes que frequentam.
E então, eu e minha irmã, iniciamos uma jornada nas redes sociais, através da página Vai Lucas no Facebook, e @vailucas_oficial no Instagram, no intuito de conscientizarmos as pessoas da importância desse tema, refletirem sobre ele e buscarem o aprendizado que é tão necessário! Mal sabíamos quanto alvoroço iriamos criar com essa atitude!
Nascia e, antes que percebêssemos, crescia o Movimento Vai Lucas!
Em novembro de 2017, 2 meses após a partida do Lucas, iniciamos a luta pela aprovação da chamada LEI LUCAS. Em 4 de outubro de 2018, 1 ano e 5 dias após a morte do Lucas, foi sancionada pelo Presidente da República a Lei 13.722/2018, mais conhecida como Lei Lucas!
A LEI LUCAS torna obrigatório que instituições de ensino básico e de recreação infantil, públicos e particulares, de todo o país, proporcionem a capacitação de parte de seus funcionários em prestação de primeiros socorros.
Nada vai trazer meu menino de volta, mas eu sempre disse que se uma única criança pudesse ser salva e uma única mãe não tivesse que passar pela dor que passo todos os dias, a partida do Lucas não teria sido em vão e, até o momento, já foram dezenas de crianças e adultos salvos! De alguma forma, Lucas vive! Meu menino que sonhava em um dia ser famoso, se tornou mesmo. Sua história é contada por toda parte.

Eu e minha família continuamos firmes em nosso trabalho. Acabamos de fundar o Instituto Lucas, com a missão de aproximar cada vez mais nossa sociedade da prevenção de acidentes e dos primeiros socorros.
Quanto a mim, luto todos os dias para conviver em paz com a dor, a saudade e a tristeza que me acompanham. Tem dias que eu as venço e esses são os dias bons. Tem dias em que elas me vencem, mas aí sempre tem o dia seguinte com uma noite no meio, como dizia minha amada avó, falecida há exatamente 1 semana. E, assim, um dia de cada vez, vou tentando ressignificar essa história, transformando dor em amor ao próximo e construindo essa nova Alessandra.
Infelizmente não verei meu filho crescer, se formar, casar, me dar netos… mas saber que há mães que poderão viver tudo isso através de um filho que tenha sido direta ou indiretamente beneficiado pela Lei Lucas, traz um calorzinho gostoso para o meu coração.
Lucas sempre me deu muito orgulho e espero que ele, de onde estiver, tenha orgulho de mim também. Meu filho teve uma passagem rápida por este plano mas deixou um legado para todas as gerações daqui por diante. Ele era grande demais para ser só meu, tinha mesmo que ser para todo mundo!
Eu amo ser mãe, definitivamente nasci para isso e é o que sei fazer de melhor. Não tenho (pelo menos até o momento) outros filhos biológicos, mas algumas pessoas já me disseram que tenho milhões de filhos Brasil afora… e sempre serei a mãe do Lucas!”
Quem quiser conhecer nosso trabalho e ajudar a divulgá-lo, visite:

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Página do Lucas “in memoriam” no Facebook: Lucas para o Ataque (canal no YouTube com o mesmo nome)

Alessandra Begalli Zamora, Advogada, mãe do Lucas, co-fundadora do Movimento Vai Lucas, fundadora do Instituto Lucas e idealizadora da Lei Lucas.

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