Tenho uma saudade que invade e amo que esteja aqui…

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O amor cultivado fica, transborda, se espalha. Gabriela não teve tempo para despedidas. Internado, sem comorbidades, Fred se foi. Dias misturados, de questionamentos, de gratidão e de muito amor, “não se despede de um amor, ele não vai embora, mesmo diante do abismo do medo de seguir só, do choro desesperado, da notícia cruel.” Ele fica, numa saudade que é acolhida, maneiras que o amor encontra para permanecer, Ele fica. Na gratidão e no bem espalhado em nome dele. Ele fica, “tenho também uma saudade que invade agora. E amo que ela esteja aqui como um abraço recebido em pensamento, o meu melhor abraço.”

(Autoria: Maria Gabriela Guimarães)

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“Preciso entender, porque comigo?” Permaneci com os questionamentos repetidas vezes, com um choro profundo que parecia não ter fim.”

“Um dos dias do meu luto: Essa semana recebi um elogio por não passar pela negação ao perder Fred. Naquele momento respondi que não havia passado mesmo, mas, hoje, ao me pegar no silêncio do banho, me lembrei que ao receber a ligação sobre o ocorrido, um choro desesperado me tomou e conversei por vezes com Deus: “meu Pai, sei que sempre faz o melhor por mim, mas porque eu? Me perdoe por questionar como quem não acredita, mas me explique por favor. Preciso entender, porque comigo?” Permaneci com os questionamentos repetidas vezes, com um choro profundo que parecia não ter fim.

Ao sair de casa para resolver as burocracias daquele dia e chegar na minha sogra, comecei a receber os sinais no pensamento, em formas de lembranças recentes que, no momento em que ocorreram, não estava preparada para receber. Imediatamente lembrei do desdobramento: “Amor, é isso mesmo. Mas está tudo bem. Fica bem!” E a frase do Fred continuou por todo aquele dia de tanta dor comigo.
Contar sobre o fato aliviou um pouco da dor de todos que ali estavam. Me fazia entender que apesar de tanta dor, não existia nada errado.
Passei dali em diante a contar pra todos que sofriam naquele dia. Contei também sobre o quão maravilhoso foi Fred nos seus dias de hospital junto a equipe médica. Quantas coisas lindas recebi da espiritualidade naqueles dias. Quão abençoada era por saber de tudo isso. Como se em doses homeopáticas isso me tratasse. Repetir coisas boas, não arrancou minha dor, mas me mudou. Mudou minha vibração. Sei que não existe tempo certo pra sentir nada. Cada um tem sua forma de viver, sentir e passar pelas dificuldades. E tudo é apenas como tem que ser. Diferente pra cada um.

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“A presença da sua ausência deu um nó em meus dias, mas a da sua lembrança me faz boa companhia, como quem guia. Descobri uma fé que não sabia. E uma força que só pode ser divina!”

Não se despede de um amor. Ele não vai embora, mesmo diante do abismo do medo de seguir só, do choro desesperado, da notícia cruel. Ele me contava da sua morada aqui, ele não partia ali, não se despediu em nenhum momento, está aqui, como sempre esteve desde que aceitei aqui dentro.

Sigo com uma saudade que é imensa, das nossas manhãs com um bom dia animado, rindo do meu humor. Ele não tomava café, cultivava o amor ali. No meu mau humor, passando meu café. Saudade dos almoços, onde ele sempre dizia que iria tentar clientes por perto e a frequência com que conseguia, ele cultivava o amor ali. Saudade da sua cara brava me esperando sair atrasada do trabalho, repetindo que não me buscaria mais e que eu precisava de mais tempo pra mim, mas ele continuava todos os dias me buscando e levando para que eu trabalhasse menos. Para ficar mais perto de mim, ele cultivava o amor ali. Ele cultivava em cada eu te amo em horários variados, no já estou com saudade nas manhãs de segunda. Quando deitava e abria o braço para que eu deitasse em seu abraço que era enorme. E todas as noites eram assim. Ele cultivava o amor ali. E cada lembrança que carrego foi cultivada no melhor amor que tive.

A presença da sua ausência deu um nó em meus dias, mas a da sua lembrança me faz boa companhia, como quem guia. Descobri uma fé que não sabia. E uma força que só pode ser divina! Da dor de um velório, nasceu o #floresqueajudam. Nossa primeira arrecadação para um projeto que nasceria. Foi assim que pedimos para não enviarem flores e, sim, dinheiro para doações. Da primeira ação, revivemos o @meumeio_. Que passou a ser nossa forma de ressignificar o amor. O mesmo que sempre esteve aqui.

E assim sigo meus dias, com uma saudade que faz chorar e rir! Com uma gratidão por tudo que vivi. Escolheria por mil vezes o mesmo lugar, mesmo quando a dor da saudade aperta!

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“Tenho também uma saudade que invade agora. E amo que ela esteja aqui como um abraço recebido em pensamento, o meu melhor abraço.”

Termino então com o texto que fiz logo após sua partida: Se eu pudesse dizer algo, continuo com a retórica: Não deixe de transbordar de amor por você. Mas se por ventura tiver coragem de amar alguém. Faça com total entrega, e receba da mesma forma. Sem medo, sem pressa, sem vergonha, sem verdades suas. Receba na sua integridade, com seus defeitos e com sua intimidade. Receba como o amor tem que ser. Ele apenas é! Sem limitações, apenas na vontade de ser, porque é. E se lhe ocorrer a reciprocidade, vai entender como é maravilhoso nos amarmos como alguém também nos ama e, também, transbordar por esse alguém. Desejo que você viva pelo menos uma única vez a sensação de transbordar por alguém, e vai entender que isso basta!

Tenho também uma saudade que invade agora. E amo que ela esteja aqui como um abraço recebido em pensamento, o meu melhor abraço. Ela faz parte de mim, do que vive no coração, do amor que tive e do que venho me tornando. Me preencho então de um sentimento que é imenso: gratidão. Sei que os planos divinos são tão melhores que os meus. Sigo especialmente mais intensa, com uma densidade que nunca para na superfície e uma necessidade de me conhecer por inteiro. Na busca do que é profundo mesmo que não belo. Do que entende e não apenas percebe. Do que sente e vive!

Sinto por mim um carinho especial. Me quero feliz, leve e em paz. Não tenho mais medo. Tenho fé.

Fred faleceu por COVID, dia 30/04. Internado, sem nenhuma comorbidade”

Insta:
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@meumeio

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