A vida me passou boas rasteiras – pai, mãe, marido…

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Josyane e as despedidas. Aos dezenove anos, através de uma emissora de rádio, a notícia que os pais não chegariam até onde estava! Além da dor, a necessidade de “reaprender a viver, junto com seu irmão Jefferson”. O encontro com Sergio, o amor, o casamento, os filhos e principalmente a fé em Deus. A explosão da caldeira que ceifou a vida do marido e a forma lúdica que encontrou para amenizar a dor das filhas pequenas… Sim, a vida passa boas rasteiras e na maioria das vezes, no luto, “o amor oferecido é o que sustenta nas conversas entre você e Deus, ontem, hoje e amanhã…”

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“Eu posso dizer, com propriedade, que a vida já me passou boas rasteiras.”

“Algum dia você já imaginou perder as pessoas que mais ama no mundo? Já parou para pensar em como seria sua vida sem eles? Creio que ninguém esteja preparado para isso, não é verdade? Eu posso dizer, com propriedade, que a vida já me passou boas rasteiras.

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“Perdi meus pais em um acidente de carro, momento em que não apenas sofri com a dor da perda mas, também, pela necessidade em aprender a recomeçar sozinha.”

Aos 19 anos, perdi meus pais em um acidente de carro, momento em que não apenas sofri com a dor da perda mas, também, pela necessidade em aprender a recomeçar sozinha. Eles moravam na cidade de Ribeirão do Pinhal/PR e eu em Cornélio Procópio/PR (54km de distância). Passei no vestibular de Ciências Contábeis e logo comecei a trabalhar como estagiária em um banco. Eu morava em uma república com mais três amigas que, também, trabalhavam no Banco.

Numa sexta-feira pós Carnaval eu pedi a eles que viessem me buscar, pois em todos os finais de semana eu ia para nossa casa, em Ribeirão. Nessa vinda deles pra Cornélio quebrou a barra de direção do carro que, desgovernado, entrou de frente num caminhão.

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“Ouvi que havia acontecido um acidente terrível, só então percebi que as pessoas falecidas no acidente eram meus pais.”

Eu morava em cima de uma padaria, desci com a mochila nas mãos para esperá-los, até que um carro estacionou na ida até a padaria, deixando o rádio ligado. Neste momento eu ouvi que havia acontecido um acidente terrível na estrada de Pinhal a Cornélio e que haviam falecido três pessoas, dentre elas uma professora de Ribeirão do Pinhal. Só então percebi que as pessoas falecidas no acidente eram meus pais.

Foi uma tragédia na época. Meu irmão morava com meus pais, mas vinha todas as noites estudar na mesma faculdade que eu, nos víamos à noite e nos finais de semana eu ia embora pra casa. Minha mãe estava com 39 anos e meu pai, 45.

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“O Sergio, sem dúvida, foi um ser diferenciado. Sempre dedicado à família e aos filhos, ele era a alegria em pessoa.”

Como se não bastasse, o “raio novamente cai sobre mim”, tirando a vida do meu grande amor, meu esposo Sergio, parceiro de uma vida.

O Sergio, sem dúvida, foi um ser diferenciado. Sempre dedicado à família e aos filhos, ele era a alegria em pessoa. Não havia tempo difícil que ele não tirasse uma lição e um ensinamento de Deus para a situação. Era amigo de todos, tinha uma inteligência fora do comum, era íntegro e com um caráter incomparável.

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“A caldeira da empresa explodiu a quase 30 metros de distância, atingindo o local onde ele estava trabalhando.”

Ele trabalhava como projetista mecânico, elaborava os projetos e acompanhava a montagem. Em uma dessas montagens a caldeira da empresa explodiu a quase trinta metros de distância, atingindo o local onde ele estava trabalhando. Infelizmente, ele teve 80% do corpo queimado pela água fervente e pelo vapor. Já no pronto socorro, ele ligou para me tranquilizar, disse que havia queimado um pouco as mãos, mas não mencionou o acidente.

Minutos depois, pessoas da cidade onde ele estava começaram a me procurar para dar entrevistas às emissoras de rádios e TV locais, só então fui entender o tamanho da gravidade.

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“Estávamos na época da pandemia, onde diversas cidades estavam em lockdown e justamente a cidade para onde ele foi levado estava em quarentena.” 

Estávamos na época da pandemia, onde diversas cidades estavam em lockdown e justamente a cidade para onde ele foi levado estava em quarentena. Ninguém entrava, ninguém saia (a não ser no caso dele que era uma situação grave).

Foram dez dias de muita angústia, oração, choro e sofrimento. Neste período, eu só tinha notícias por telefone, fiz amizade com algumas enfermeiras do hospital que me passavam as notícias diariamente.

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“Tudo o que ele nos diz é que Deus é bom o tempo todo, e que ele precisa voltar para a casa, pois tem quatro passarinhos para dar água.”

No sétimo dia, ele demonstrava uma piora do quadro, falei com uma enfermeira que me disse: “O Sergio é um exemplo de ser humano, pois mesmo com todo corpo enfaixado e com toda a dor que nem a morfina é capaz de tirar, ele não deixa de orar um só dia, pois dobra os joelhos no chão e tudo o que nos diz é que Deus é bom o tempo todo, e que ele precisa voltar para a casa, pois tem quatro passarinhos para dar água (se referindo ao sustento dos filhos que ele precisava prover).

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Foram momentos de muita dor, muitos desafios e muitas saudades. Vivi tudo isso calada, com muito choro nas madrugadas e com questionamentos a Deus…

No décimo dia aprouve ao Senhor recolhê-lo. Aqui, o sofrimento veio com força total, como se Deus me dissesse: “Agora que eu quero ver você ser forte!” Eu não tinha outra opção a não ser incorporar um personagem e fingir uma resistência que no fundo não existia.

Foram momentos de muita dor, muitos desafios e muitas saudades. Vivi tudo isso calada, com muito choro nas madrugadas e com muitos questionamentos a Deus, afinal de contas, eu precisava demonstrar uma naturalidade com relação à morte, de modo que os nossos filhos não sofressem mais do que já estavam sofrendo.

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“Sempre tentei, de uma forma lúdica, amenizar o sofrimento pela perda, e de certa forma, demonstrar que apesar de tudo, o papai estava bem.”

Inventei muitas histórias para as crianças como por exemplo: “Hoje é domingo, papai deve estar comendo churrasco lá no céu com Jesus! Segundou, certamente o papai já levantou para trabalhar! Sexta-feira, hoje o papai tem estudo da palavra direto com o autor da obra”, e por aí vai. Sempre tentei, de uma forma lúdica, amenizar o sofrimento pela perda, e de certa forma, demonstrar que apesar de tudo, o papai estava bem (e eu tenho certeza que está).

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“O luto é um processo que nem todos aqueles que te dizem “conta comigo” de fato estão dispostos a te auxiliar…”

Os dias foram passando e o que a vida nos ensinou é que a dor nunca irá passar, mas que o tempo nos ensina a conviver ela. O luto não é um sentimento com prazo de validade. É um processo doloroso que muitos não compreendem, um processo que nem todos aqueles que te dizem “conta comigo” de fato estão dispostos a te auxiliar, na maioria das vezes é entre você e Deus!

E por que estou escrevendo tudo isso? Porque o meu desejo é que você valorize quem está do seu lado, que respeite, seja parceiro, ame incondicionalmente e dedique o seu tempo a Deus, em entender o que virá, buscando um relacionamento de intimidade com Ele, pois eu posso afirmar, que sem Ele é impossível suportar.”

(Autoria: Josyane Limonge)

@adv_josyanelimonge
@lacoselutos_

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