Pai, sinto sua falta todos os dias

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Aurylene e o amor incalculável pelo pai. O COVID, a esperança, o acolhimento dos amigos, a reza. A despedida que impede o último olhar, “parecia um pesadelo, enterrar quem a gente ama sem ao menos poder tocar no caixão.” O vazio no dia dos pais. A tristeza do pet, Bob, que sente a falta do tutor e, também, se despede. O luto, a dor que não se supera, aprende a conviver. O legado de amor e generosidade que jamais será retirado. Um pai que fica, para sempre. Assim é, assim merece ser, assim deve ser, para sempre.

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“Meu pai, Aurystenio de Andrade, foi diagnosticado com COVID-19 no final de 07/2020, no início não era grave, mas teve uma piora.”

“Meu pai era a pessoa mais feliz que eu já conheci. Sua alegria, simplicidade, amor e cuidado eram muito marcantes, transbordava amor pela família e nós por ele. Era muito presente não só em minha vida, mas na vida de todos, protetor, caridoso, um pai exemplar, um esposo admirável e um avô fenomenal.

Meu pai, Aurystenio de Andrade, foi diagnosticado com COVID-19 no final de 07/2020, no início da internação seu caso não era grave, permaneceu na enfermaria, precisando de oxigênio por três dias, mas teve uma piora no quadro, sendo entubado por doze dias. Faleceu em 07/08/20, aos 67 anos de idade. Todos os dias eu penso nele.

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“Enquanto conversávamos, nem imaginávamos, meu pai partia, com uma parada. Fiquei sabendo quase uma hora depois. Fiquei em choque, desnorteada…”

Desde que meu pai foi diagnosticado com COVID-19 rezei muito para sua cura e fiquei muito preocupada. Ao ser entubado fiquei desesperada, chorava compulsivamente todos os dias. Pedi que todos os meus amigos rezassem por sua recuperação, fui muito acolhida, mas meu coração continuava angustiado, com medo de perdê-lo.

Era uma sexta feira, 07/08/20, fomos mais uma vez ao hospital e fomos informados que havia uma melhora, mas que, ainda, continuava em estado gravíssimo, enquanto conversávamos, nem imaginávamos, meu pai partia, com uma parada. Fiquei sabendo quase uma hora depois. Fiquei em choque, desnorteada e sem acreditar. Pensava o tempo todo, “Meu Deus, eu pedi tanto, rezei tanto, tantas pessoas rezaram para que fosse salvo.

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“Parecia um pesadelo, enterrar quem a gente ama sem ao menos poder tocar no caixão. Não tocar em seu rosto deixou tudo muito mais doloroso.”

Foi o pior dia da minha vida, eu sentia uma dor tão profunda, o dia seguinte foi ainda pior, ao enterrar o meu pai na véspera do dia dos pais. Parecia um pesadelo, enterrar quem a gente ama sem ao menos poder tocar no caixão. Não tocar em seu rosto deixou tudo muito mais doloroso e tornou mais difícil suportar a realidade que se fazia presente. Não ter os rituais de despedida aumenta ainda mais a dor do enlutado e torna mais difícil assimilar uma perda tão significativa.

O dia dos pais sempre foi um momento de muita alegria e festa na minha família, celebrávamos com churrasco, nunca imaginei que o dia dos pais de 2020 seria tão doloroso, a dor era tamanha que nem consigo descrever em palavras, eu só sentia um vazio enorme, uma dor tão profunda e intensa que me deixava enfraquecida, as lágrimas não cessavam e a dor me sufocava.

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“A dor de cada um é única e com o luto não é diferente. O meu vínculo era gigante, incalculável, do tamanho do amor que sinto por ele.”

Muitas pessoas não entendem essa dor tão dilacerante e isso é totalmente compreensível, não validar a dor do outro e proferir frases como: “Já se passaram três meses”, “Já tem um ano, né?” frases que tendem a causar danos no enlutado. Só sabemos verdadeiramente a intensidade de uma dor quando somos surpreendidos por ela. Cada um lida com a perda a sua maneira e a depender do vínculo que tinha com quem se foi. A dor de cada um é única e com o luto não é diferente. O meu vínculo era gigante, incalculável, do tamanho do amor que sinto por ele.

Em 2020 eu ainda não era psicóloga e como estudante já sentia o peso e a cobrança, se eu chorasse era vista como se estivesse doente, não podia expressar a minha dor tão genuína. Eu pensava: será que um psicólogo não pode sentir dor? A dor da morte de uma pessoa tão importante na vida? Psicólogo não é gente?

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“Não se supera a morte de alguém que amamos, aprendemos a lidar e a viver mesmo sentindo dor e saudade.”

Sinto dor, sim, senti a dor da perda do meu amado pai e sinto essa dor até hoje, não tem prazo de validade. Sinto o vazio na casa dele, sinto sua falta todos os dias, eu estava com ele todos os dias, na minha vida toda. Não se supera a morte de alguém que amamos, aprendemos a lidar e a viver mesmo sentindo dor e saudade.

Em datas comemorativas essa dor se faz mais presente. Tínhamos o hábito de celebrar aniversários e ele amava comemorar o dele, amava viver, então, há dias que são mais difíceis do que outros. No ano de 2020 não comemorei meu aniversário e o nosso Natal foi um segundo funeral de tanta tristeza e dor que sentíamos. Não houve celebração, teve muito choro e sofrimento. A partir do ano seguinte voltamos a celebrar a vida e o Natal até como uma forma de honrar o seu legado, seus ensinamentos e sua alegria de viver.

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“Meu pai amava cachorros, Bob, o preferido dele, definhou de tanta tristeza, nunca mais foi o mesmo, cuidamos para que sobrevivesse, mas ele se foi.”

Tivemos outros gatilhos dessa dor. Meu pai amava cachorros e cuidava dos dele com muito amor. Vimos de perto o sofrimento deles, dois morreram. Bob, o preferido dele, definhou de tanta tristeza, nunca mais foi o mesmo, cuidamos para que sobrevivesse, mas ele se foi.

Eu cuidei e cuido da minha dor, do meu luto, a psicoterapia é uma excelente aliada nesse processo, me ajuda a ter um direcionamento já que a morte nos desestabiliza e muda para sempre a nossa vida, nada mais é como antes, mas há outros caminhos a serem percorridos. É uma nova vida após a perda, uma nova jornada, a perda será para todo o sempre.

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“Devemos expressar as nossas emoções, chorar quando sentimos vontade, sorrir ao lembrar dos momentos felizes.”

O luto é para ser vivido em toda a sua intensidade e complexidade, devemos expressar as nossas emoções, chorar quando sentimos vontade, sorrir ao lembrar dos momentos felizes que tivemos. Saudade é o amor que fica!”

(Autoria: Aurylene de Andrade)

@psicologa.auryleneandrade

@lacoselutos_

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