Mãe, pai e filha, sobreviverei para honrá-los e mantê-los vivos

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Giselle, mãe e filha. A despedida da filha, da mãe e do pai. Renascer mil vezes nessa existência, renascer na saudade que a acompanha. Como não ficar em pedaços diante de tantos lugares que silenciam? Renascer no amor que foi oferecido, num exercício lento, vagaroso e diário, honrando as palavras da filha, horando o amor dos pais, honrando a própria vida. Pai, mãe e filha ficam, todos os dias. Assim é, assim deve ser, assim merece ser, para sempre.

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“Foram 20 anos de convivência, ela me ensinando como viver em plenitude.”

Thalyta, minha filha, “Tata”, era intensa, cheia de vida, amava viver. Tinha pressa, parece que sabia que sua passagem por aqui seria breve, por onde passava esbanjava alegria e encorajamento.

Amava a área na qual ia se formar, Pedagogia. Era apaixonada por crianças. Ela é e sempre será meu amor forte e verdadeiro, meu manual lindo de como viver. Foram 20 anos de convivência, ela me ensinando como viver em plenitude.

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“Havia realizado sua primeira conquista material, sua própria moto, mal eu poderia imaginar que dali mudaria totalmente nossas vidas.”

No dia 14/04/2019 Tata foi ao aeroporto de Brasília me buscar, eu estava chegando de uma viagem. Estava radiante, feliz, muito falante, numa intensidade fora do normal. No dia 15/04/2019 ela tomou café da manhã em casa. Foi para a faculdade, voltou, almoçou comigo e foi trabalhar. Havia realizado há cinco meses sua primeira conquista material, sua própria moto, estava muito feliz, mal eu poderia imaginar que dali mudaria totalmente nossas vidas.

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“Foi o pior dia da minha vida. Meu mundo caiu, o ápice da dor, dor sem nome. Me vi perdida e sem direção em um abismo sem fim.” 

Terminou de almoçar e me disse “essa semana será pequena demais” e, realmente, foi. Eu e meu marido estávamos na casa da minha mãe. Eu senti um mal estar e, quando levantei, o telefone fixo tocou. Era do trabalho da Tata, a patroa dela me relatou que havia ocorrido um acidente e minha filha havia caído em um buraco, perdido o equilíbrio e caiu no asfalto. O semáforo havia aberto e a condutora que estava atrás arrastou minha filha, passou com o carro por cima dela.

Tata foi com vida para o hospital, porém, não resistiu. Foi o pior dia da minha vida. Meu mundo caiu, o ápice da dor, dor sem nome. Sentimento que não desejo a nenhuma mãe. Os sonhos e projetos, a formatura, faltavam seis meses, o sonho de casar e me dar netos. Me vi perdida e sem direção em um abismo sem fim. Receber a notícia de um médico que sua filha, jovem e tão cheia de vida, não resistiu é desolador. Uma menina de futuro, 20 anos, cheia de vida.

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“A pior coisa do luto é a falta de novidade sobre a vida de nossos filhos, as conquistas, enfim, a vida acontecendo…”

A pior coisa do luto é a falta de novidade sobre a vida de nossos filhos, as conquistas, enfim, a vida acontecendo… Meu Deus, foi por Ele que me coloquei em pé diante desse golpe da vida e escolhi juntar os caquinhos e me reconstruir, mesmo amputada, porém, a vida não para. A vida não perdoa. A gente pensa que não terá tanta dor e perdas, mas a vida segue e, às vezes, de forma dolorosa.

Eu segui, tentando juntar meus pedaços. Veio a terrível pandemia, nos nocauteando mais uma vez. Era final de março de 2021. Meu pai e minha mãe testaram positivo para Covid. O pesadelo se instalou mais uma vez.

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“Minha mãe não resistiu à intubação. Teve paradas respiratórias, tinha problemas no coração. Meu pai também não resistiu à intubação e se foi.”

Meu pai é internado com 90% do pulmão comprometido, logo depois veio a internação da minha mãe, ambos tinham um quadro de diabetes e pressão alta, as comorbidades.

Minha mãe, Angela, partiu em 11/04/2021, aos 62 anos, não resistiu à intubação. Teve paradas respiratórias, tinha problemas no coração, infelizmente. Meu pai, Jassonio, também não resistiu à intubação e se foi em 16/04/2021, aos 65 anos.

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“Mês de abril não é fácil, aniversário de partida dos três. Ressignificar não é tarefa fácil. Um dia de cada vez.”

Meu pai e minha mãe, minhas referências de vida, minhas bases, alicerces, referenciais de vida. Mais uma vez me vi sem chão e não sabia por onde recomeçar. Meus pais eram meu exemplo de relacionamento, 42 anos de casados. Inspiração de amor e cumplicidade, sei que um não ficaria sem o outro por aqui, por isso a escolha de partirem juntos. Todos os dias sinto falta dos três, foi o até breve mais dolorosos. Eu sobrevivo a espera do doce Reencontro.

Mês de abril não é fácil, aniversário de partida dos três. Ressignificar não é tarefa fácil. Um dia de cada vez.

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“Peço a Deus todos os dias para transformar toda essa dor em amor. É muita saudade!”

O dia mais forte pra mim foi a partida da Tata, eu jogada na cama, imaginei ela entrando em meu quarto e dizendo: “Mãe essa não é você, levanta daí!” Nesse dia e em todos os outros decidi me levantar em sua homenagem.

Peço a Deus todos os dias para transformar toda essa dor em amor. É muita saudade! Todos os dias Dona Saudades vem me visitar. Para resistir me envolvi em grupos de watts que tem mães e pais enlutados. Na minha cidade, Anápolis GO, temos um grupo de mães, uma levanta a outra e, devagarinho, vamos atravessando o luto.

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“Filha, a forma que encontro para transformar essa dor em amor é viver como você me ensinou. Enquanto vida eu tiver vou te honrar.”

Quando meu pai e minha mãe se foram a dor se tornou maior, pois eles eram minha base, minha coluna. Sobreviver foi ainda mais difícil sem eles.

Tata você me ensinou através da sua existência a viver intensamente, porém, não sem você. Mamãe ficou aqui, meio perdida sem você. A forma que encontro para transformar essa dor em amor é viver como você me ensinou. Enquanto vida eu tiver vou te honrar.

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“Meus amores sobreviverei para honrá-los e mantê-los vivos até nosso reencontro.”

Pai, mãe, gratidão pelo amor, pela família, por me escolherem, por cuidarem tão bem da gente. Amo vocês até a eternidade. Que falta vocês me fazem.

Meus amores sobreviverei para honrá-los e mantê-los vivos até nosso reencontro. Saudade tem nome, tem cheiro, tem lembranças de muito amor.”

Autoria: Giselle Moraes

@_gisellemoraes_

@lacoselutos_

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