“Não é a ordem da vida os filhos irem primeiro…”

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(Autoria: Carmen Kappel, mãe eterna da Marciele)

A Carmen fala dessa dor, inimaginável, que é se despedir de um filho, essa sensação de não dar conta de tamanha dor, “não vou conseguir, vou enlouquecer”, fala do choro e da visita ao quarto e da doação das coisas da filha, a Carmen fala do amor que se reinventa amando tantas outras pessoas através dos projetos e da espiritualidade, um jeito de dar jeito na “vida que  jamais vai ser a mesma”, vida essa que se reinventa buscando ajuda, cuidando de si mesma, como a filha pedia,   “estou fazendo minha parte”. A Carmen fala da ajuda da família e da união dos amigos da Corporação, juntos, todos, fizeram a Marci continuar no sorriso de gratidão de tantas e tantas famílias que ajudaram, e ajudam. A Marci fala de tantos e tantos profissionais que falecem durante o trabalho, buscando um mundo mais justo…

“Meu nome é Carmen, sou mãe da Marciele, Fisioterapeuta, Pós-graduada em CARDIO, e SOLDADO do Pelotão de operações especiais de Santa Cruz do sul, 28 anos, que foi atropelada e veio a falecer em uma ocorrência no interior da cidade, no dia 25.11.2019.
Marciele era uma jovem estudiosa, independente, amava churrasco, salada de maionese e uma boa cerveja , viajante, teimosa, fazia aulas de natação, sonhadora, muito família, sempre fazia festas de aniversário e reunia os amigos que ela escolhia a dedo, com pagode, amava tirar fotos, jogar futebol, sempre tinha uma gracinha para falar, necessitava estar rodeadas das pessoas que gostava.
Desde pequena queria ser policial, colocava a farda do meu marido e se sentia. Eu não queria, dizia pra ser qualquer outra coisa. Estudou e entrou para a faculdade de Fisioterapia, no ano seguinte se inscreveu no concurso para a Brigada. Tinha o sonho de comprar um apartamento, mas não deu tempo. Amava os colegas de trabalho, e não deixava que dissessem que não podia fazer algo por ser mulher, trabalhou nas ruas, no telefone, nas bicicletas e motos. Sonhava me levar para conhecer outros países e fazer uma viagem com os irmãos, “viajar ela dizia é viver mãe” .Ela amava ser policial, ajudar as pessoas pelas ruas, eu tinha medo quando ela tirava fotos fardadas porque achava que iam marcar, me dizia “MAE, TU NÃO VAI CONSEGUIR ME COLOCAR EM UMA CAIXINHA “ .
Sempre digo que parecia que ela pressentia algo, dizia o que fazer se acontecesse algo com ela, senhas, seguro, doação de órgãos (não consegui fazer devido aos traumas), se preocupava muito com os dois irmãos. Na sexta tivemos a última festa em família. .No sábado me beijou antes de trabalhar, estranhei, não fazia isso, no domingo, fez churrasco, dormimos, e na segunda de manhã ela saiu para trabalhar, eu não vi.
Acordei naquele dia muito estranha, sentei na beira da cama e disse para meu marido que ela havia saído sem me chamar, ela sempre batia na porta e gritava “tô indo mãe, beijos, te amo muito” ou, então, eu gritava “não vai me dar tchau!”, ela gritava “tchau, mãe”. Estava com um aperto no coração e achava que ia ter algo, será um AVC, brinquei. Naquele dia perdi a chave do carro, mandei uma mensagem para Marci às 12:00, “tu viu as chaves ou tem uma reserva aí?”, ela respondeu que não e que estava saindo para uma ocorrência. Liguei para Bruna ela pedindo a chave reserva, ela me olhou e perguntou se estava tudo bem. Eu disse que estava estranha, sentindo um aperto no peito e uma coisa muito triste dentro de mim, mas que devia ser normal. Sai para pegar meu carro, quando vi uma colega vindo, pálida, pensei, “Que será que aconteceu com ela”, a gente nunca pensa que pode ser com a gente. Ela me perguntou onde estavam meus filhos, perguntei “a Bruna?” Ela, “não, a Marciele”, quando ela falou coloquei a mão no peito e parei de sentir o que eu estava sentindo, meu celular tocou do nada e era meu marido dizendo que a Marci havia sofrido um acidente e não havia resistido. Eu não sei como atirei tudo e só gritava, minha filha, por que? A minha vida toda me preparei para que se algo acontecesse com meu marido, porque ele também é militar, inclusive trabalharam juntos, mas nunca me preparei para perder minha filha.
Quando cheguei no quartel parecia uma entrada sem fim, todo mundo me abraçava, eu via mas, ao mesmo tempo, não via ninguém, queriam me dar remédios, eu disse “não, quero ver minha filha, saiu pela manhã, não consegui dar um beijo, um abraço.” Fui em casa, peguei a farda que ela mais amava e o quadro de formatura que ela tanto aguardou, ao entrar, desabei, aquilo parecia ser um pesadelo sem fim e, como o velório foi em outra cidade, fui remoendo até lá, por uma hora, o que poderia ter acontecido, como tinha acontecido, como ela estaria, será que era verdade. Dormi na casa da minha mãe, de manhã tinha a difícil tarefa de ver minha filha pela última vez. A sensação que eu tinha era que tudo ia acabar naquela hora, quando vi todos entrando e abriram o caixão, parecia que estava serena, perguntei, “por que, Marci, tu tem que ser tão teimosa?” Senti que ¼ de minha vida tinha ido com ela, nossos sonhos, planos, risadas, brigas, nada mais fazia sentido. Quando peguei aquela bandeira nas mãos, vi que ela tinha partido realmente, no momento, me culpei, pensei se ela não tivesse sido policial e fosse fisioterapeuta, porque deixei? A gente cria os filhos para o mundo, e não é a ordem da vida os filhos irem primeiro.
Voltei para casa após oito dias, durante vários dias eu entrava no quarto dela, abria as janelas, chorava, fechava a porta e saia. Chorava todas as noites, acordava de madrugada e dizia “não vou conseguir, vou enlouquecer.” Pedi a ajuda de meus filhos e doei algumas coisas para o centro espírita e, naquela noite, tive um sonho com ela, ela sentava no sofá e mandava um recado, eu anotei. De manhã, pensei, mas a morte da minha filha de 28 anos não pode ter sido em vão, mandei mensagem para uns colegas dela solicitando que me ajudassem a fazer uma ação para juntar presentes para os bairros carentes, o capitão e os colegas prontamente me ajudaram, começamos com 20 pessoas, durante a ação tínhamos umas 80. Foi o “Natal Solidário da Marciele”, era para ser local, mas distribuiu por todos os quarteis do estado, tínhamos mais de 1000 itens, quando chegávamos nos bairros parecia que meu coração ia explodir de tanto amor, era como se fosse um pouco dela em cada criança. Após o natal, me senti sem rumo, fui no centro espírita, onde encontrei explicação para muita coisa, passei a ler muito. Leiam muito, rezem, peçam luz para seus filhos, e paz, muita paz. Passadas algumas semanas, pensei, vou fazer tudo que tínhamos combinado eu e ela, fui para praia, ia em lugares que falávamos e onde tínhamos ido antes.
Sempre, desde o início, falei o nome dela, creio que falar nos alivia, porque nossos filhos existiram, não surgiram do nada e existem de espirito junto conosco, sempre. Fui na terapia, ela sempre quis que eu fosse e, ao psiquiatra, faço uso de medicamento, mas, já diminuiu muito com as campanhas para as crianças. Tem dias que são difíceis, levanto a cabeça e sigo porque tenho mais dois filhos.
Durante a pandemia fiz uma campanha para arrecadar alimentos para doação, fiz muitas máscaras para bairros carentes, doei mais de duzentas, fiz camufladas para a brigada e troquei por alimentos. Em algumas datas eu participo de um projeto com minha filha, que distribui marmitex para pessoas que vivem nas rua. Creio que só temos uma forma de fazer esta dor girar, transformando, auxiliando as crianças, para que não cheguem onde chegou o menino de 17 anos, que atropelou minha filha. Não quero ver mais mães chorando, perdendo seus filhos, essa é minha forma de ressignificar.
Através da partida da minha filha e dos projetos voluntários, aprendi a dizer mais eu te amo, abraçar, beijar, fazer o que me der vontade, dizer o que tenho para dizer. Trabalhei muito durante minha vida toda, me separei muito cedo, meus pais me ajudaram, a Marci, também, me ensinou muito, a ser mais decidida, a sonhar e estudar.
Os nossos filhos só vão evoluir quando nos perdoarmos, eu me perdoei por tudo que não fiz, pelo que fiz de errado, perdoei pessoas, inclusive as que fizeram isso com ela porque são carentes de amor. Já tive a benção de sonhar com ela algumas vezes, estou com meu coração tranquilo e em paz, com muita saudade, sei que minha vida jamais vai ser a mesma mas, um dia após o outro, estou fazendo minha parte, quero criar também um grupo de ajuda para pessoas que tem as mesmas dificuldades que eu tive, e ainda tenho, que é enfrentar esta dor tão difícil. Minha filha era apenas uma menina com muitos sonhos, só queria ser policial e trabalhar. DOAR SEMPRE SEM RECEBER NADA EM TROCA.
Última postagem da minha filha no Instagram, “CORRA, NÃO PARE, NÃO PENSE DEMAIS, REPARE ESSAS VELAS NO CAIS, QUE A VIDA É CIGANA.”
Instagram: @carmenkappel
Face: carmenkappel

 

 

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