“Filha, você vive em cada batida do nosso coração…”

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Véspera de natal, as luzes que chegam não brilham na terra, viajam para o céu, viajam para o universo, Fernandinha vira luz. Bárbara e Marcelo e a dor da despedida – a ausência  da voz que chama um pai e uma mãe, a imensidão dos vazios, a única filha se despede e a casa toda silencia, o quarto vira o lugar do encontro com o mundo físico da filha,  “o mural de fotos com as amigas, suas roupas e a coleção de bolsas”. Oito dias imensos de um adeus que foi acontecendo a cada segundo, oito dias longos de uma dor profunda que se inicia, ali, e que dão a certeza que não será possível viver sem a filha, nunca, delicadamente, Fernandinha, feito luz, se acomoda no coração dos pais, lugar onde permanecerá para sempre…

(Autoria: Bárbara e Marcelo, pais eternos de Fernandinha)

“Já sonhávamos com o ano de 2022, eu e meu esposo completaríamos 25 anos de casados e nossa filha, Fernanda, 15 anos. Seria um ano de muitas alegrias, mas, infelizmente, a vida veio nos ensinar que não temos controle sobre ela e que coisas ruins também acontecem com pessoas boas.

Em novembro de 2019 descobrimos da noite para o dia uma doença incurável na nossa única e tão amada filha, no auge dos seus doze anos recebemos o diagnóstico de um tumor cerebral maligno, após sentir uma forte dor de cabeça, nunca antes sentida, e também nenhum outro sintoma que pudesse ser investigado anteriormente.

Ela era uma adolescente muito inteligente, determinada, curiosa e questionadora, era notada em todos os lugares, pois adorava um papo. Tinha muitos amigos e não aceitava ficar fora de algum evento (festas, cinema, passeios no shopping). Uma menina feliz e com um sorriso iluminado.

Nos surpreendemos com sua maturidade ao enfrentar uma cirurgia de grande porte para retirada desse tumor e depois de uma preparação criteriosa para iniciar o processo de radioterapia, porém, nada acontece por acaso, acreditamos que ela não merecia passar por um tratamento tão agressivo e doloroso para obter o mesmo resultado final.

Foi agendado o início da primeira sessão de radioterapia no dia 17/12, na véspera ela teve uma convulsão, pela primeira vez, impossibilitando o início do tratamento. Não saímos do lado dela por oito longos dias dentro do CTI até a conclusão da morte cerebral e, no dia 24/12/19, Deus levou nossa luz do sol.

Para os pais de filho único, acho que o nosso maior desafio é entender que precisamos seguir nossa missão sem filhos pois, a partir do momento em que nos tornamos pais, nossa maior missão é cuidar deles. Fernanda era nossa companheira, nossa maior alegria e motivação para enfrentar as adversidades da vida, resumindo, ela era o nosso tudo.

Uma morte tão repentina e prematura sem aviso e sem sentido, difícil de aceitar. Nessa travessia dura e cruel vamos aos poucos reaprendendo a viver sem a Fernandinha, pois, a morte tem forças para abalar muitas coisas, mas não abala nosso amor por ela. Precisamos encontrar nesse luto a nossa razão de continuar lutando e fazer com que esse amor seja maior que a própria morte.

Ao longo desses cinco meses posso dizer que seguimos na elaboração desse luto, sentindo muito a perda, chorando sempre quando a vontade chega, mas seguindo em frente, voltando à normalidade da vida, mesmo que esse normal não seja o mesmo de antes.

O vazio é imenso, mas acreditamos que, aos poucos, os sentimentos de tristeza, raiva, angústia, desesperança e incredulidade vão abrindo espaço para as boas lembranças, admiração, e que, impere o grandioso amor que sentimos por ela.

Não carregamos o peso da culpa, Fernandinha (como era conhecida) viveu intensamente e usufruiu da melhor maneira tudo que pode e foi muito feliz e nós, como pais, fizemos sempre o melhor por ela.

O quarto dela é o nosso tudo e nada, permanece do jeitinho que ela deixou. Hoje, nesse quarto, falta alguém muito especial, mas já conseguimos nos sentirmos bem melhor dentro dele, virou uma espécie de Santuário particular. Ele nunca esteve fechado, mas, no início, olhar para o mural de fotos com as amigas, suas roupas, coleção de bolsas, etc, era muito mais doloroso do que agora.

Aos poucos estamos nos reconectando com Deus novamente, mesmo sabendo que ele é o único caminho que nos ajuda a ultrapassar os maus momentos, você acaba se zangando com ele quando a perda realmente se concretiza, assim, continuamos nossa trajetória do luto, com uma única certeza, que a nossa Fernandinha vive em cada batida do nosso coração.”

@barbaraoliveira1425

2 Comentários

  1. As dores do luto são diversas vezes explicada, relatada pelos diversos tipos, mas a cada um é sentida diferente, não basta o que as pessoas nos falam e sim o tamanho e aproximação de Deus, só Ele consegue nos acalentar, nos sentirmos um pouco melhor. Marcelo e Barbara, desejamos todo carinho e orações a vocês e a Fernandinha (não a conheci), mas pelos relatos de vcs ela era DEMAIS. Marcelo e família.

  2. Impossível não ficar com os olhos cheios de lágrimas.
    Nós que convivemos com a Fernanda, sabemos O quanto ela era feliz e também que vocês sempre fizeram de tudo para que essa felicidade fosse constante.
    Um grande beijo no coração.

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