Filho, fecho os olhos e te sinto

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Amor é assim, cede espaço e fortalece o outro. O que é o tempo diante da despedida de quem amamos? O que são sete meses diários de força, fé e esperança? O que são sete meses para assimilar qualquer possibilidade que não seja a permanência? Talvez se compare com um dia, uma hora… ah, o tempo é tão bobo diante dessas coisas do amor.

A carta falando de amor. O parabéns com a mãe. O dia seguinte. A despedida. O Rafa foi cercado de amor, pelos familiares, pelos pais, pela irmã. O Rafa é brindado todas as noites porque o amor desconsidera a falta e faz dela presença. Assim é, assim deve ser, assim merece ser, para sempre.

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“Na verdade, todos nós acreditávamos que ele ficaria bem, nossa fé era gigantesca.”

“Sou mãe do Rafa e da Carol, três anos mais velha que ele.

Rafa, meu filho, sempre foi um menino extremamente carinhoso, dizia eu te amo o tempo todo e me cobria de beijos e abraços. Acho que ele sabia que seu tempo aqui era curto e aproveitou o amor como ninguém. Também sempre foi muito estudioso e um artista, desde pequeno desenhava e pintava.

Amava a família acima de tudo. Aos treze anos, sem qualquer aviso prévio, queixou-se de dores na barriga e após um exame de sangue, em 02/07/19, foi diagnosticado com leucemia. Nosso mundo desabou, no mesmo dia ele foi internado e ficou por 45 dias.

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“Minha filha, uma pessoa muito forte, atualmente com quase vinte anos, sempre compreendeu e nos deu força.”

Durante o tratamento não tínhamos tempo para Carol, nos voltamos completamente para o Rafa. Minha filha, uma pessoa muito forte, atualmente com quase vinte anos, sempre compreendeu e nos deu força.

Nos momentos mais difíceis ficávamos dias sem voltar para casa, minha filha sempre nos consolava, dizia que o Rafa era forte e ficaria bem, na verdade, todos nós acreditávamos que ele ficaria bem, nossa fé era gigantesca.

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“O luto foi solitário. Me parecia tão inacreditável que acordava a noite e pensava, isso não aconteceu! Até hoje ainda acho.”

Após 45 dias internado, Rafa recebeu alta, mas logo vieram intercorrências gravíssimas. Ele não respondia à quimioterapia e, apesar de ter quatro doadores de medula 100% compatíveis, a leucemia avançou rápido. Rafa partiu em 04/03/20, deixando um vazio e uma saudade que não consigo descrever.

Nossa família sempre foi muito unida e isso foi o que nos sustentou, pois logo veio a pandemia e as pessoas desapareceram. O luto foi solitário. Me parecia tão inacreditável que acordava a noite e pensava, isso não aconteceu! Até hoje ainda acho.

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“Choro quando tenho vontade, falo dele com frequência e vou seguindo meu caminho até o sonhado reencontro.”

Já vi muitas crianças partirem e hoje tenho uma relação diferente com a morte, não posso dizer que entendo, mas cada um tem um tempo aqui. O tempo de internação do Rafa me ensinou muito, a gentileza dele com médicos e enfermeiros, o carinho era impressionante, mesmo diante de tanto sofrimento.

Ele me deixou uma missão, ajudar outras crianças e suas famílias. Quase três anos se passaram e eu vivo meu luto, choro quando tenho vontade, falo dele com frequência e vou seguindo meu caminho até o sonhado reencontro. Mas enquanto eu estiver aqui, quero orgulhar o Rafa, luz da minha vida.

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“Assim foi seu último suspiro, cercado pela família e pelo amor. Amor que se torna maior a cada dia na certeza do reencontro.”

No dia 03/03 foi meu aniversário. Ele acordou, me escreveu uma linda carta, cantou parabéns, almoçamos juntos no quarto do hospital. Às 15h00 ele me disse que estava com sono,  “mamãe quero dormir, mas tenho medo de não acordar mais.” Dormiu, a saturação caiu e foi levado para a UTI.

No dia seguinte o médico disse que ele teria poucas horas. Como meus pais e meus irmãos tinham ido a São Paulo para meu aniversário, o médico permitiu que todos pudessem estar ao lado dele na partida. Assim foi seu último suspiro, cercado pela família e pelo amor. Amor que se torna maior a cada dia na certeza do reencontro.

Eu, Carol e meu marido, Cyro (um companheiro de vida e de luta maravilhoso), questionamos muito Deus. Hoje entendo que ter fé é ter força para seguir diante das surpresas da vida. Sem fé fica difícil nos levantarmos.

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“Meu marido chorou muito no início, acho que os pais sempre vão ter a sensação que não curtiram os filhos como as mães.”

Seguimos caminhos diferentes no luto.

Eu me apoiei na doutrina espírita que me trazia, e ainda traz, algum conforto. Já recebi mensagens dele e sei que me espera do outro lado do caminho, mesmo sabendo que a vida nunca mais será como antes. A Carol fala menos do irmão, mas o quarto é cheio de fotos dele e no celular está a imagem dele no descanso de tela.

Meu marido chorou muito no início, acho que os pais sempre vão ter a sensação que não curtiram os filhos como as mães. Brindamos ao Rafa todas as noites sem exceção e nos emocionamos sempre ao falar dele. Agradeço a Deus por ter a Carol e ainda escutar a palavra mamãe. Agradeço por ter o Cyro, meu companheiro há 26 anos e que fez tudo que podia pelo Rafa.

Agradeço uma família maravilhosa, meus pais, irmãos, sobrinhos e cunhados. Em especial a minha irmã Karla, madrinha do Rafa, a quem ele tanto amava, e a minha amiga Claudia, sempre presente.

img-20200330-wa0007“Tive e tenho apoio, mas o luto é solitário. Dias bons e dias difíceis e assim será.”

A dor é emocional e física, mas minha família sempre me deu abertura para falar do Rafa. Na nossa casa o Rafa está presente em muitas fotos, nos quadros nas paredes que ele pintou e no ar que respiramos.

Um mês após sua partida fiquei pensando o que eu poderia fazer com todo amor que eu tinha por ele. Então conheci o projeto @amorque.cura que atende crianças carentes em tratamento oncológico e que vem para Belo Horizonte. Mergulhei neste projeto de corpo e alma e até hoje é onde sinto a maior conexão com o Rafa.

Fecho os olhos e sinto meu filho. Já tive o prazer de receber a visita dele algumas vezes em sonho. O amor transcende a vida e seguirá por toda a eternidade.”

(Autoria: Patrícia Passos Giovine)
@_patriciapg
@lacoselutos_

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