Mãe, enquanto eu viver você não será esquecida…

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Vera, a mãe. Daiane, a filha, mas tinha muito mais gente, tinha amor espalhado por todos os cantos. Uma mãe alegre, forte e amorosa deixa muitos lugares vagos – os telefonemas matinais, as receitas de panqueca e feijão, os remédios caseiros. Ela estará no amor nos jogos, lavando o quintal de salto alto, nos três brincos, ela estará nesse amor imenso, tão imenso que o luto será um lugar diário porque ela acompanhava todos os dias da semana nesse amor oferecido. Vera fica, para sempre. Assim é, assim deve ser, assim merece ser, para sempre.

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“Cantava quase o tempo todo, lavava o quintal de salto alto enquanto conversava com as plantas. Ela dormia de batom, usava três brincos em cada orelha,”

Minha mãe, Vera Lúcia Miranda Tersigni, 67 anos, partiu em 26/04/21, Covid-19.

Uma mulher linda, sorridente, vaidosa, batalhadora, de uma fé inabalável. Sentia orgulho de suas conquistas pessoais e era imparável. Ela passou longe de ser frágil, era como uma rocha.

Foi uma das primeiras mulheres da família a dirigir veículos. Cantava quase o tempo todo, lavava o quintal de salto alto enquanto conversava com as plantas. Ela dormia de batom, usava três brincos em cada orelha, cabelos ruivos vibrantes e tinha um perfume doce e fresco.  Gostava de praia, Copa do Mundo e Martini com cereja.

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“Avó amorosa, os netos eram suas luzes. Cuidava deles como seu maior tesouro, bordou fraldas, curou umbigos.”

Todos que passavam por ela ganhavam bom dia seguido de um sorriso. Uma mulher realmente esplendorosa. Mãe protetora, “linha dura”, não admitia qualquer sinal de desvio do caminho correto e virava uma onça quando seus filhos eram feridos. Mãe abnegada, sei que suas batalhas foram também para que eu e meus irmãos pudéssemos viver plenamente.

Avó amorosa, os netos eram suas luzes. Cuidava deles como seu maior tesouro, bordou fraldas, curou umbigos, brincou de cavalinho (ela era o cavalinho), jogou bola, bolinha de gude, foi cobaia de cabelos malucos e maquiagens engraçadas por incontáveis vezes, fazia acampamentos na sala, tendas com lençol…a felicidade desses momentos era imensa.

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“Dona Vera estava com a saúde debilitada, havia retirado uma prótese de ombro infectada em 11/20 e por isso tomou antibióticos até fevereiro de 2021.”

Representava uma força de trabalho impressionante e, além do salão de cabeleireira, também ia para a lavoura, onde trabalhava com meu pai, onde todos os filhos também colaboraram de alguma maneira em algum momento de suas vidas.

Eu sinto tanto orgulho dela, de tudo que ela fez, de tudo que ela representa para mim.

Dona Vera estava com a saúde debilitada, havia retirado uma prótese de ombro infectada em 11/20 e por isso tomou antibióticos até fevereiro de 2021.

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“Me lembro de seu semblante tranquilo, apesar do cansaço, havia tomado banho, tinha os cabelos molhados e estava sorridente, me disse que queria ir para casa.”

O vírus terrível encontrou minha mãe em março de 2021, quando não podia encontrar. Ela foi internada em 24/03, nos falamos todos os dias por ligações de vídeo e, pela última vez, na manhã do dia 30/03/21. Me lembro de seu semblante tranquilo, apesar do cansaço, ela havia tomado banho sem oxigênio, tinha os cabelos molhados e estava sorridente, me disse que queria ir para casa, eu respondi para ela focar na recuperação e que tudo ficaria bem. No mesmo dia, uma piora repentina a levou ao CTI, incomunicável.

No dia 26/04/21, quando o Sol ia alto ao meio-dia, depois de uma luta para ficar, ela se foi. Então iniciou-se, como um grito, aquele que seria o capítulo mais triste da minha vida até o momento. Eu perdi minha companheira mais antiga de jornada, meu primeiro amor, o porto seguro, aquele que permite voltar sempre e sempre.

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“O luto é a escuridão completa. É preciso, a todo tempo, ter pensamentos e atitudes que iluminem, curem e afastem a sensação de estar perdida nesse labirinto.”

O luto é a escuridão completa, uma ferida aberta que não cicatriza, um labirinto sem saída.  É preciso, a todo tempo, ter pensamentos e atitudes que iluminem, curem e afastem a sensação de estar perdida nesse labirinto. Livros, música, lembranças felizes, gratidão pela vida que tive ao lado dela, religiosidade, trabalho e família, especialmente meu marido e minha filha, mas houve um tempo em que nada aliviava a dor da perda.

Quando ela se foi eu já havia vivido a passagem de outras pessoas queridas, mas nenhuma partida foi tão avassaladora quanto a dela. Tive que me despedir de mim mesma e, de alguma maneira, aprender a conviver com outra Daiane, conviver também com a falta do ordinário, aquilo com o que estava habituada a vivenciar diariamente: ligar pela manhã – para nada – e ouvir o “bom dia com muita alegria” de sempre; perguntar as receitas da panqueca, do feijão, do remédio natural para tosse; combinar o horário que chegaríamos na casa dela ou que ela viria para a nossa nos finais de semana. O amor do dia a dia, aquele que normalmente passa desapercebido, transmutou-se na tristeza mais pungente.

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“Viver o luto é uma batalha interna diária. O objetivo é completar minha jornada nessa vida com plenitude e inteireza”

Viver o luto, para mim, é uma batalha interna diária. O objetivo é completar minha jornada nessa vida com plenitude e inteireza, mesmo diante de tamanha e insolúvel tristeza.  Assim minha mãe desejou que fosse a vida dos quatro filhos: completa.

A nós não é revelado o plano de Deus, mas sei que tudo tem Nele uma razão de ser, isso eu aprendi com ela. Gosto de pensar que a ninguém é imposto sofrimento maior do que o necessário. Este mundo é de sofrimento, mas não é assim o lugar aonde Ele a levou e onde ela, agora, vive.

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“Sua partida deixou um vazio, dias cinzas e uma saudade profundamente dolorida.  Enquanto eu viver ela não será esquecida.”

Minha mãe é uma presença importantíssima; sua partida deixou um vazio, dias cinzas e uma saudade profundamente dolorida.  Enquanto eu viver ela não será esquecida. Seguir vivendo no bem, protegendo nossos amores, realizando sonhos e honrando a caminhada dela impulsionam minha caminhada nessa vida.

Obrigada por tudo, dona Vera. É uma dádiva ser sua filha. A ti, meu amor eterno e imensurável.

(Autoria: Daiane Marin)

@dsbmarin

@lacoselutos_

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