Pai, sinto você comigo, sempre…

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Marta e seu amor de filha, com todos os caminhos possíveis no amor mas, sempre, amor. As mãos entrelaçadas, as lágrimas, a conexão. O silêncio, o cheiro, a porta batendo, eterno silêncio, noites intermináveis, a saudade. Um pai não parte, “está comigo e com minha mãe. Como sempre. Nós três.” ele fica, para sempre. Assim é, assim deve ser, assim merece ser, para sempre.

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“Meu pai tinha um jeito manso de falar com as pessoas, mas as cativavas com seu jeitinho. Não conheço uma pessoa que não gostasse dele.”

Meu pai, Lauro Ravazzi, partiu em 30/12/2020, aos 70 anos. Ele teve um AVC grave, ficou entubado, foi sedado em função das complicações, vindo a falecer.

Falar dele ainda é um ponto sensível. Uma pessoa simples, humilde, sem frescura. Inteligência e sabedoria aprendidas na escola da vida. Embora tímido e acanhado era figura marcante em qualquer lugar que frequentasse. Tinha um jeito manso de falar com as pessoas, mas as cativavas com seu jeitinho. Não conheço uma pessoa que não gostasse dele.

Era uma pessoa tão honesta que me dava raiva (até porque algumas pessoas abusavam disso). Trabalhou desde os doze anos de idade até o último dia de sua vida. Amava o que fazia, era marceneiro (aprendeu a profissão sozinho, e não é porque é meu pai, mas era aquele profissional raro de encontrar).

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“Minha relação com meu pai sempre teve muito amor, apesar de não ser a mais próxima, por várias questões que passamos.” 

Fazia tudo o que eu pedia. Literalmente tudo. Queria ver ele feliz era fazer algo para as filhas e esposa. Ele era assim, chamava minha mãe de baixinha, e eu sua eterna “Martinha”. No meu aniversário já sabia o que ganharia, sempre o mesmo chocolate, o meu favorito. Isso era regra. Meu pai era esse homem, amados por todos!

Minha relação com meu pai sempre teve muito amor, apesar de não ser a mais próxima, por várias questões que passamos. Acho que sou bem parecida com ele em várias questões.

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“Me lembro da última vez que o vi, eu brincava com ele mexendo em seu peito e ele sorria.”

Em 2019 e 2020, com a pandemia, pudemos ficar mais próximos, acho que era uma despedida. Quando ele foi internado já não estava falando, em função do AVC, mas me lembro da última vez que o vi, eu brincava com ele mexendo em seu peito e ele sorria.

Nosso último encontro foi como sempre, eu, ele e minha mãe. Éramos nós três, sempre (tenho mais duas irmãs, mas são casadas), por morar com eles e pelo meu jeito acabo cuidando deles.

img_6029-2“Tive a confirmação que ele me ouvia, estava ali comigo, como sempre esteve. Segurava a minha mão e as lágrimas escorriam em nós dois. Estávamos conectados, como sempre estaremos.”

Perder meu pai foi muito difícil, eu me culpava muito pela nossa relação, não me perdoava, até um dia que sonhei com ele (não sou de sonhar), acredito muito ter sido um encontro e me lembro de ter pedido perdão para ele. Ele só sorriu. A partir daí acho que nos libertamos, ele pode seguir seu caminho, onde estiver, e eu o meu, aqui.

Durante a internação, por estar sedado, os médicos diziam que ele não podia me ouvir mas, um dia, conversando com ele e segurando sua mão, ele respondeu apertando a minha mão. Tive a confirmação que ele me ouvia, estava ali comigo, como sempre esteve. Segurava a minha mão e as lágrimas escorriam em nós dois. Estávamos conectados, como sempre estaremos.

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“Apesar de sentir que ele está bem, existe um eterno silêncio, noites intermináveis. O choro hoje é de saudade!”

Meu pai está comigo todos os dias, hoje e quando tenho uma intuição, sinto que está comigo. A gente se encontra de várias formas, sinto seu perfume em casa, ouço a porta na hora em que ele costumava chegar. Ele está comigo e com minha mãe. Como sempre. Nós três.

Apesar de sentir que ele está bem, existe um eterno silêncio, noites intermináveis. O choro hoje é de saudade!
(Autoria: Marta Ravazzi)

@maravazzi

@lacoselutos_

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