Meu amor, a saudade me põe para dormir…

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Camila, Isael e Henrique, uma família. Um acidente e tudo muda, é retirada a partilha do crescimento de um filho que chama pelo pai, excelente pai, é retirada a possibilidade dos filhos que teriam. É preciso se conectar com esse amor de outra forma, mantê-lo no cheiro da roupa nas noites insones, nas fotos, na mecha de cabelo, nas preces. É preciso continuar, apesar da dor, nessa mistura que traz o choro e a alegria nas festas da escola. Isael sempre estará, inclusive quando sentir sua falta será um jeito de estar. Seu amor fica. Assim é, assim deve ser, assim merece ser, para sempre.

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“Sou a Camila, meu esposo, Isael, foi vítima de um acidente de trânsito, veio a óbito aos 30 anos, desde então, nossos dias não são mais os mesmos.”

“Sou a Camila, meu esposo, Isael, foi vítima de um acidente de trânsito, em 01/01/22. Ficou gravemente ferido, amputou o membro inferior e membro superior esquerdos. Veio a óbito em 11/01/22, aos 30 anos, desde então, nossos dias não são mais os mesmos.

Isael era um homem atípico, não tinha fascinação por futebol, não gostava de festas, não consumia nenhum tipo de bebida alcoólica. Uma pessoa de muitos conhecidos e poucos amigos. Era forte e incrivelmente resiliente, amava o campo e os animais, gostava de ficar em casa com a família. Tinha um sorriso discreto, sempre muito observador e nunca dispensava um bom café.

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“Éramos dois opostos, mas nos completávamos verdadeiramente, diante das alegrias e das tristezas sempre estávamos juntos.”

Exerceu em vida vários papéis, antes de mais nada ele era meu primo, amigo, foi meu primeiro namorado e logo nos casamos. Tivemos um relacionamento de pouco mais de dez anos e, desse amor, nasceu nosso filho Henrique, que hoje é a minha maior alegria. Éramos dois opostos, mas nos completávamos verdadeiramente. Não tínhamos um relacionamento perfeito, mas o que nos unia era maior que qualquer diferença ou dificuldade. Diante das alegrias e das tristezas sempre estávamos juntos.

A versão que mais amei dele foi como pai, conseguia exercer esse papel admiravelmente, após o nascimento de Henrique eu tive a certeza de que havia escolhido certo o pai para os meus filhos, ele sempre estava presente, dando amor, carinho, atenção e sendo firme sempre que necessário. Henrique o idolatrava, chamava de “Papai Amor “. Durante o pouco tempo de convívio deles plantou um amor puro e genuíno no coração de nosso filho e eu o cultivarei para sempre.

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“Sonhávamos em ter outro filho, conquistar outros sonhos e a não possibilidade disso tudo é muito frustrante, dói demais.”

Tenho vivido situações muito difíceis nos últimos tempos, aceitar sua partida, conviver diariamente com sua ausência, lidar com os desafios diários e escutar nosso filho dizer ” eu quero o meu pai ” são algumas delas.

Eu sempre sonhei em dividir os desafios e as alegrias da maternidade com ele, gostaria que visse as conquistas do nosso filho e registrasse nossos momentos juntos. Sonhávamos em ter outro filho, conquistar outros sonhos e a não possibilidade disso tudo é muito frustrante, dói demais.

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“Há noites em que não durmo, a dor parece não caber dentro de mim, nesses momentos sinto o seu cheiro que ficou na última camiseta.”

Durante as apresentações de Henrique na escola sempre choro, é uma mistura de sentimentos, a falta de quem éramos, os três, e a gratidão pelo que ficou. Meu ato de coragem diário tem sido conviver com a dor e, ainda assim, conseguir continuar, sorrir e agradecer. Não é uma tarefa fácil.

A saudade me põe pra dormir todas as noites e quando acordo ela logo chega. Há noites em que não durmo, a dor parece não caber dentro de mim, nesses momentos sinto o seu cheiro que ficou na última camiseta, toco na mecha cabelo dele, que guardo com tanto amor, olho nossas fotos e viajo nas lembranças. As lágrimas escorrem, faço uma prece à Deus para que ele esteja bem e que eu possa senti-lo perto de mim, mesmo que eu não possa ver, ouvir ou tocar.

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“A morte não é o fim, nosso amor não acabou, apenas se transformou, não estamos separados, apenas em planos diferentes.”

A dor tem me ensinado grandes coisas, vivi experiências espirituais inexplicáveis . Um dia eu estava desesperada pra ter notícias de isael, uma angústia que não me permitia dormir e, quando eu menos esperava, uma amiga me mandou uma mensagem dizendo, ” Camila, essa noite eu sonhei com isael escrevendo uma carta pra você e ele me dizia para te dizer que ele está bem, foi um sonho tão real que acordei e já te dei o recado “. Naquele momento, chorei de saudades, mas, também, de gratidão. Senti um alívio enorme e a certeza que eu precisava amolecer meu coração para enxergá-lo em cada detalhe.

A morte não é o fim, nosso amor não acabou, apenas se transformou, não estamos separados, apenas em planos diferentes. Confiar em tudo isso tem sido meu alento e acalento. Eu não vou desistir, continuarei evoluindo um pouco a cada dia, fortalecendo a minha fé e cuidando do bem mais precioso que Deus nos deu, nosso filho, e espero que ele sinta orgulho de mim.”

Meu amor te eternizará, com amor e saudade, de sua Camila.

@camila.maia.92123

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