“Pai, enquanto eu viver, a morte não o sepultará em mim…”

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A Laura é Advogada Previdenciária e escreve poesias, nascidas do amor e das inquietações, lugares de onde nasceu, também, seu livro, “Quando a noite escura chegou”, em que fala das travessias do luto e do amor eterno. A Laura é irmã e filha. No ano de 2006, se despediu do irmão de 24 anos. No ano de 2020 se despediu do pai. A morte não a separa do pai e do irmão, eles ficam. Laura fala de gratidão, amor, apoio, de uma dor insuperável e de olhos que a viam de um jeito que sempre se sentia melhor, Laura fala do amor que não é sepultável, da continuidade como lugar de honra ao amor oferecido.

(Autoria: Laura Pipi)

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“Ele me dedicou tanto amor e renunciou a tanta coisa pela nossa família e por mim, que me fez emotiva, sensível, humana, e ao mesmo tempo me ensinava a ser forte. “

“Meu pai sempre foi meu melhor amigo, meu maior ídolo e meu maior fã, nos compreendíamos e nos interpretávamos até mesmo no silêncio. Com ele aprendia as maiores lições da minha vida, e mesmo após a sua partida continua me ensinando. Ele me falava que Deus tinha dado a ele um cravo (meu irmão) e uma rosa (eu). O cravo Deus tinha recolhido com 24 anos de idade, e agora meu pai está podendo voltar para Deus, voltar para casa, e cuidar do cravo dele, que era um motivo de grande saudade também.

avaky3615-334O cravo, Deus tinha recolhido com 24 anos de idade, e agora meu pai está podendo voltar para Deus, voltar para casa, e cuidar do cravo dele, que era um motivo de grande saudade também.”

Ele me dedicou tanto amor e renunciou a tanta coisa pela nossa família e por mim, que me fez emotiva, sensível, humana, e ao mesmo tempo me ensinava a ser forte. Dizia-me também que eu não podia deixar que as cordas do meu coração deixassem de tocar, fazendo analogia ao coração como um instrumento musical. Meu pai vivia por mim, pela minha mãe e pelas duas netinhas, tudo que fazia era por nós, saia do escritório e ia levar as netas no shopping, na feira, construiu uma casa de boneca para elas, topava qualquer aventura, se encantava com as coisas mais simples da vida.
Em 2018 meu pai começou a passar mal, ele era advogado, trabalhou normalmente até a hora do almoço, e as 12h40 começou a ficar confuso, esse estado foi piorando…Ele ficou cerca de dois meses e meio sem saber o que fazia. Levamos ele em mais de onze médicos até que um médico descobriu que ele estava com uma hiponatremia, medicou e a consciência foi voltando. Depois ficamos meses tentando descobrir o que estava causando aquela baixa de sódio no sangue, pois todos os exames estavam normais, com excesso do sódio que tinha que ficar sendo reposto. Cerca de cinco meses depois descobrimos em um dos exames que ele estava com um aneurisma. Assustada levei ele para fazer uma consulta em São Paulo, o médico nos tranquilizou informando que a clipagem que ele precisava fazer não era tão urgente. Meu pai ia juntar o dinheiro para, em cerca de cinco meses, fazer a cirurgia.
Lembro que quando meu pai estava inconsciente, minha mãe estava chorando desolada, falando que queria que ele voltasse para nós…e disse a ela para agradecermos a Deus, pois ele podia ter passado mal e partido, mas ele estava ali, ao nosso lado, e estávamos cuidando dele.
Após cinco meses, meu pai estava com o dinheiro para fazer a cirurgia do aneurisma, íamos para o Rock in Rio, no Rio de Janeiro, no final de setembro de 2019. Meus pais iam conosco para aproveitar a cidade. Meu pai falou que chegando do Rio já podíamos agendar a cirurgia em São Paulo. Três dias antes da viagem para o Rio de Janeiro meu pai começou a tossir com sangue, fomos ao hospital e, após um Raio X e uma ressonância, fomos informados que precisaríamos passar pelo oncologista, havia um câncer no pulmão, mas somente o oncologista poderia confirmar. Foi um baque muito grande. Lembro de estar sentada na frente do hospital com ele, e começar a chorar e ele me falar “filhota você tem que ser forte”.
Quando concluímos todos os exames e se confirmou o câncer, falei para o médico que estava pensando em ir para Barretos e ele me falou que daria o encaminhamento. Eu que tinha medo de dirigir em estrada e jamais tinha ficado um dia longe da minha filha, arrumei uma mala para mim, pedi para minha mãe arrumar uma mala para meu pai e fomos naquele mesmo dia. Eu só conseguia pensar que eu precisava fazer tudo o que eu pudesse para tentar ajudar a salvá-lo.

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“E no velório eu fui me sentindo de mãos vazias, porque cuidar dele, zelar por ele, era algo que eu fazia com tanto amor, respeito, e, com aquele ciclo encerrado eu me sentia vazia de sentido.”

Fomos para Barretos em 06/10/2019, fomos atendidos, aluguei uma casinha porque o tratamento era longo e ele gostava de ter o espaço dele. Arrumei aquela casa com todo o amor e organizando tudo o que ele pudesse precisar, tentava ficar alegre e positiva, mas ele sentia dores, ficava quietinho. De 10/2019 a 01/2020 fui cinco vezes para Barretos, levava meus processos e os dele para trabalhar, tentava deixar tudo organizado. Em dezembro eu tinha uma viagem com meu marido, minha filha e sobrinha organizada, e ia cancelar, mas ele não deixou e falou que ficaria bem com minha mãe. Lembro de um dia que liguei e ele estava quase sem voz, chorei muito, era muito difícil ver ele enfraquecendo. Cheguei de viagem dia 08/01/2020 e dia 11/01/2020 os levaria de volta para nossa cidade. Voltamos, mas como ele tinha feito quimioterapia estava se sentindo mal. No dia 15/01/2020 ele acordou, quando cheguei na casa dele e perguntei como ele estava, ele respondeu que naquele dia estava melhor. Por volta das 16h00 minha mãe ligou desesperada falando que meu pai estava passando mal. Cheguei antes da ambulância, mas ele já estava no chão, sem que pudesse ser feito mais nada. Minha mãe e as meninas estavam desesperadas dentro de casa, e eu só conseguia ficar perto do corpo dele. Não queria deixá-lo sozinho, pedi para o pessoal da ambulância colocá-lo em sua cama, fiz tudo o que precisava ser feito, escolhi o caixão, levei a roupinha dele na funerária.
E no velório eu fui me sentindo de mãos vazias, porque cuidar dele, zelar por ele, era algo que eu fazia com tanto amor, respeito, e, com aquele ciclo encerrado eu me sentia vazia de sentido.
Passei a rezar e pedir para Deus cuidar do meu pai, agora que eu não podia cuidar mais dele, e que meu pai e meu irmão tivesse se encontrado e estivessem juntos, para matar a saudade um do outro.
Tentei em todos os momentos pensar na gratidão, gratidão por ele ter sido meu pai, e sendo meu pai ter me dedicado tanto amor, carinho, respeito, renúncia. Ele sempre foi meu melhor e maior amigo, meu maior parceiro, com toda certeza, minha alma irmã. Gratidão por ter tido ele por 37 anos em minha vida.
Mas dói muito, e sou plenamente consciente de que essa dor é insuperável, eu estou aprendendo a suportar viver em um mundo onde não existem aqueles olhos admirados me olhando, se orgulhando de mim, me vendo melhor do que eu sou e me amando. Eu sei que ele ainda cuida de mim, mas esse nunca mais estar perto nesse plano físico ainda é doloroso.
Hoje eu cuido dos meus processos e de todos os processos que meu pai cuidava, e atendo pessoas que falam “seu pai não era só meu advogado, era meu amigo”, “eu gostava muito do seu pai”, “seu pai me falou que se acontecesse algo com ele, era para te procurar que você resolvia para mim”. Não tinha como eu parar. Não tinha como eu parar, porque ele sempre me falava (mesmo antes de estar doente): “você tem que ser forte porque quando eu for embora você tem que cuidar da sua mãe, da Isabella e da Brenda”…e não tinha como eu parar porque a vida continua sendo um instante, e eu tenho que aproveitar muito o tempo que tenho ao lado da minha mãe, da Brenda, da Isabella e do Kleysller, porque nós nunca sabemos quando o inesperado irá bater em nossa porta. E eu preciso continuar, porque quando reencontrar meu pai um dia eu sei que ele terá muito orgulho de como eu conduzi as coisas que precisavam ser feitas. Enquanto eu existir, a morte não sepultará meu pai, pois ele vive em mim, enquanto eu viver.

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“Nos amamos muito e vivemos imensamente nosso amor, nossa dedicação, nosso cuidado mútuo…eternamente ele vai viver em mim, eu vou viver nele, e enquanto eu viver, a morte não o sepultará em mim…”

Hoje, meu pai, é minha doce lembrança, hoje ele mora no meu coração e morando aqui dentro eu sabia que a casa precisava estar bonita para que ele se sentisse acolhido, mas nem sempre é fácil…como dizia o poeta “quanto maior o amor, maior a dor”. Passados um ano e seis meses, estou aprendendo, dia após dia, aprendendo a viver em um mundo onde fisicamente ele não está, pois durante 37 anos ele esteve sorrindo, segurando minha mão, sendo meu porto seguro, meu ombro, meu abraço, os olhos que me viam e me contemplavam e me admiravam de um jeito que eu nem merecia, mas ele me dedicava tanto, tanto, tanto, e eu retribua tanto, tanto, tanto, que transbordávamos amor. Mas, hoje transbordo gratidão também, porque não tenho arrependimentos, nos amamos muito e vivemos imensamente nosso amor, nossa dedicação, nosso cuidado mútuo…eternamente ele vai viver em mim, eu vou viver nele, e enquanto eu viver, a morte não o sepultará em mim…”

@lacoselutos_

Para comprar o livro:

“Quando a noite escura chegou”, autoria: Laura Pipi

Instagram: @laurapipi

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