Pai, parecia tudo dentro de um filme…

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Daniele e o pai, Fernandes. A internação, a despedida. A última roupa negada, o tempo negado. Cinco minutos para uma despedida. O sol, as árvores, as pessoas que ele gostava. A dor da saudade, o sufoco no peito e o nó na garganta. É preciso renascer nesse amor, na pescaria, na ida até a padaria, nas músicas, no cuidado, nos sonhos, no pêssego. Ele sempre estará, amor não acaba. Assim é, assim deve ser, assim merece ser, para sempre.

whatsapp-image-2023-03-20-at-09-16-58-1“Uma semana depois, saiu o resultado do teste de COVID, positivo. Ele teve uma parada cardiorrespiratória e não resistiu. Recebi a notícia pela minha irmã e meu chão caiu.”

“Sou Daniele, meu pai, Fernandes, faleceu em 14/02/22, em decorrência do COVID, sepsia e complicações pós angioplastia.

No dia 27/01/22 levei meu pai ao hospital para ser internado e tratar um problema vascular, vinha de um histórico de cardiopatia e diabetes. Uma semana depois, saiu o resultado do teste de COVID e, para nossa surpresa, deu positivo. Imediatamente ele foi isolado e proibiram as visitas, eu só falava com ele por telefone.

Em uma quinta-feira foi a última vez que nos falamos. Na sexta ele passou por um procedimento de angioplastia, os médicos disseram que estava tudo bem, porém, no domingo foi entubado. Após uma semana sofreu uma parada cardíaca e foi ressuscitado, porém, na segunda ele teve uma parada cardiorrespiratória e não resistiu. Recebi a notícia pela minha irmã e meu chão caiu.

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“Ao solicitar o serviço funerário tivemos a notícia que não haveria velório, eu, sequer, colocaria uma roupa em meu pai. Como assim?”

Ao solicitar o serviço funerário tivemos a notícia que não haveria velório, eu, sequer, colocaria uma roupa em meu pai. Como assim? Parecia que eu estava dentro de um filme que, por um momento, acabaria e tudo voltaria ao normal. Nossa despedida durou menos de cinco minutos.

Ele nunca gostou de velórios, dizia que não gostava de vela e nem do cheiro das flores e, assim, sua despedida não teve nada disso. Foi rápida e com as pessoas que ele gostava. Estava muito sol e rodeado de árvores, colocamos a música que ele mais gostava (“O Milionário”, interpretada por “Os Incríveis”)

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“Foi assim que eu conheci a dor da saudade, o sufoco no peito e o nó na garganta, a vontade desesperadora de falar com meu pai e abraçá-lo.”

A minha ficha ainda não tinha caído, como assim o melhor pai e avô partiu? Eu perdi meu ídolo, meu guia, minha inspiração. O que aconteceu? O que deu errado? Eram tantas perguntas sem respostas… por um momento me senti culpada, eu o levei ao hospital para ser curado e o tirei de lá sem vida.

Foi assim que eu conheci a dor da saudade, o sufoco no peito e o nó na garganta, a vontade desesperadora de falar com meu pai e abraçá-lo. Eu não podia mais viver um momento que já havia vivido, a única forma de matar a saudade era resgatar as lembranças, ver fotos e vídeos.

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“Eu sempre sonho com ele, nós conversamos, nos abraçamos e acordo com a sensação que realmente estivemos juntos, algo inexplicável.”

Meu pai foi a melhor pessoa que conheci, me deixou o amor mais puro dentro de mim, as lembranças mais felizes.

Após uns quinze dias da sua partida, sonhei com ele, me perguntava porque eu estava triste, eu respondia que não era nada. Ele me dizia “que estava bem, muito bem, que tinha se recuperado.” Eu sempre sonho com ele, nós conversamos, nos abraçamos e acordo com a sensação que realmente estivemos juntos, algo inexplicável. É o que me conforta.

Carrego comigo a memória de criança, quando ele me buscava na escola toda sexta e me levava para comer pizza com guaraná na padaria. Sempre me trazia algo do mercado, dentre as últimas coisas me trouxe pêssegos, no natal de 2021. Adorava pescar, com seu olhar distante, era bem falante. Amava fazer churrasco e colocar música alta, sempre foi um pé de valsa.

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“Sua presença física é impossível, mas eu o carrego 24 horas no meu coração e nos meus pensamentos.”

Ninguém podia passar vontade de nada, por isso sempre levava algo por onde passava. Era um tirador de sarro, fazia piada com tudo. Até em sua partida, sua última imagem para alguns foi seu sorriso largo e olho puxado, um beijo no rosto molhado e um abraço apertado.

Quando me pego triste e com lágrimas nos olhos, lembro do seu sorriso, do seu abraço, do seu beijo em cada chegada e partida. A sua alegria era contagiante, lembro dele a cada música que escuto, a cada comida que preparo, a cada passeio que faço.

Sua presença física é impossível, mas eu o carrego 24 horas no meu coração e nos meus pensamentos. Meu pai foi guerreiro e me ensinou a ser assim também. Inexplicavelmente, ele me ajuda a continuar, seus ensinamentos e seu amor é que me sustentam. Ele não está mais presente fisicamente, mas, sempre estará vivo dentro do meu coração.”

(Autoria: Daniele Gertulino)
@danigertu
@lacoselutos_

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