Saudades, meu pai, meu herói sem capas…

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A Mara fala de um pai herói, desses que povoam a vida de muitos, sem capas, um pai que fica sozinho com seis filhos, o maior com oito anos e o menor com três meses. Como não sentir falta do sorriso e da ternura? Como não seguir olhando para a força desse pai que fez essa travessia sorrindo, criando todos os filhos sozinho. Ele fica, para sempre, para sempre.

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“Minha mãe saiu de casa deixando para trás seis filhos, a mais velha com oito anos e o menor com três meses. Meu pai abriu seus braços com o maior amor”

“Deixo registrado um pouco da vida de um super-herói, não usou capas, mas usou o amor… Meu pai, Arnolpho José Monteiro, casou e teve seis filhos, sou a caçula das mulheres e como todos meus outros irmãos, éramos muito ligados a ele.

Minha mãe saiu de casa no ano de 1967, deixando para trás seis filhos, a mais velha com oito anos e o menor com três meses. Meu pai abriu seus braços com o maior amor, um super-herói, e nos criou sozinho. Crescemos com muito amor, carinho, atenção e educação. Acho que todos nós tínhamos medo que um dia ele fosse embora, assim como fez minha mãe.

Era uma pessoa que só víamos sorrindo, parece que não tinha tristezas, talvez a ocupação com seis filhos não deixasse espaços e nem tempo para ser infeliz.

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“Tudo começou com um exame de ultrassom abdominal, Aneurisma da veia Aorta Abdominal, não sendo possível uma cirurgia devido a sua idade.”

Crescemos, casamos e me preocupei com a solidão dele. Apresentei uma mulher, ficaram juntos por mais de 13 anos, ela teve um AVC e faleceu. Ele sofreu com essa partida, mesmo estando ao seu lado, sabíamos que não era a mesma coisa. Depois de alguns anos meu pai se casou novamente, era feliz, estava sempre feliz, sorrindo, ficaram casados por dez anos, até seu falecimento.

Tudo começou com um exame de ultrassom abdominal, Aneurisma da veia Aorta Abdominal, não sendo possível uma cirurgia devido a sua idade. Eu fiquei responsável pelos seus cuidados e por acompanhá-lo no que fosse necessário. O tempo foi passando e fomos informados que o aneurisma havia dilatado.

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“Me chamaram e tive a notícia que eu nunca queria ouvir na vida, meu amor havia partido, com um sorriso nos lábios, sem sofrimento e ao meu lado.”

No dia 20/09 o levei ao hospital, estava com pneumonia, fomos para casa e retornamos ao hospital dia 22/09. Foi medicado e mandado de volta pra casa. No dia seguinte ele acordou bem, mas não reconhecia algumas pessoas próximas. Dia 24/09, amanheceu com uma dorzinha na barriga e, mais tarde, chorou de dor ao se trocar. Fomos ao hospital, foi diagnosticado um borramento atrás da aorta, enquanto aguardávamos ele deu uma tremida forte no braço direito e a cadeira se virou, ele estava sorrindo. Gritei para o médico “meu pai tá morrendo”.

Eram 19:00 horas do dia 24/09/2020. Me lembro que correram com meu herói pra emergência e eu já sabia que ele tinha ido embora. Saí em estado de choque de dentro do hospital e liguei para minha família, às 20:00 me chamaram e tive a notícia que eu nunca queria ouvir na vida, meu amor havia partido, com um sorriso nos lábios, sem sofrimento e ao meu lado.

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“Eu chorava dia e noite, pedia ao meu esposo para buscá-lo, pensava somente em ir ao encontro dele, acelerando minha partida.”

Fui até a casa do meu paizinho, escolhi a roupa, dali seguimos direto pra funerária. Eu e meu filho escolhemos o caixão, os dizeres e a coroa de flores. Do velório não me lembro muito, sei por meus irmãos e familiares que teve muita gente, mas muita gente mesmo. Chamei meus irmãos e fiz uma oração em agradecimento a Deus por nos ter dado o melhor pai que poderíamos ter tido.

Passaram os meses e o primeiro Natal sem ele foi difícil pra toda família. Após alguns meses minha ficha caiu, “meu pai herói não voltaria”. Eu chorava dia e noite, pedia ao meu esposo para buscá-lo, pensava somente em ir ao encontro dele, acelerando minha partida, só pensava em morrer.

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“O senhor me disse que quando partisse íamos chorar só na primeira semana, depois nem íamos lembrar mais. Penso em você todos os dias.”

Ainda passo pelo psiquiatra e faço uso de medicamentos, sei que meu paizinho não gostaria de nos ver tristes e doentes.

Pai, saudades, descanse em paz, até breve, sei que logo nos reencontraremos. Ah, paizinho, o senhor me disse que quando partisse íamos chorar só na primeira semana, depois nem íamos lembrar mais. Penso em você todos os dias.”
Te amamos eternamente.
Família Monteiro.

(Autoria: Mara Monteiro)

@mara.monteiro65

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